Pelo terceiro ano consecutivo a Folha Cidadania e a Biblioteca Viva Itinerante realizaram na semana passada mais uma edição do ''Brincar é Coisa Séria'', que desta vez reuniu 750 alunos de 15 escolas participantes do programa de incentivo à leitura da FOLHA, que tem patrocínio do Sicredi. Nos dois dias de apresentações ocorridas no gramado em frente à antiga Casa do Papai Noel, na beira do Lago Igapó, a oportunidade de assistir à encenação interativa de uma das mais importantes manifestações da cultura popular brasileira: o Auto do Bumba Meu Boi.
À sombra frondosa de um imponente abacateiro, as crianças se divertiram com a história de Catirina, que grávida do nono filho tem o desejo de comer a língua do boi preferido do patrão, o boi Pintadinho. Mesmo a contragosto, seu marido (Benedito) acaba por realizar sua vontade. Depois entra em aflição para recuperar a saúde do boi, que fica debilitado após a sua língua ser retirada e desaparece. Na busca incessante por ajuda, em que chega a consultar um médico e um padre, acaba por encontrar na sabedoria indígena a cura para o boizinho.
De forma bastante interativa, a montagem mistura linguagem teatral, música com instrumentos populares, mamulengos (bonecos de luva típicos do Brasil e caracterizados por estereótipos) e adereços que marcam essa manifestação popular principalmente na região do Maranhão, onde os festejos são comemorados três vezes ao ano, com grande participação das comunidades envolvidas. Diferente de Parintins (interior do estado do Amazonas), onde a manifestação popular está cada vez mais ganhando contornos comerciais, a exemplo do Carnaval carioca.
Conduzida pelo palhaço Coisa Fina, a história vai sendo narrada com a participação dos bonecos mamulengos manipulados pela atriz Daniela Fioruci, responsável também pela interpretação vocal dos personagens que vão surgindo no palco específico para esse tipo de apresentação, chamado de panada por ter panos ao redor.
Ao valorizar a participação dos alunos no decorrer da história - como no momento em que eles se reúnem em grupo para procurar o boi predileto ou fazem a dança indígena com maracás para o ritual de cura -, as crianças têm a oportunidade de vivenciar uma história que muitas vezes apenas ouviram falar de forma superficial em trabalhos folclóricos realizados nas escolas.
No final, divididos em grupos, os alunos ainda foram desafiados a responder a algumas charadas tendo como prêmio um livro de livre escolha para o uso da turma e um guia de uso responsável da internet.
''Foi a primeira vez em que viemos aqui e achamos que seria só uma contação. Foi uma proposta diferente e interessante porque as crianças não têm muito contato com a cultura popular. Esse tipo de trabalho traz a cultura do país para cá e acho que as escolas precisam se atentar para isso, estamos pecando nesse aspecto. É preciso valorizar mais o regionalismo, levá-lo para a sala de aula, pois tem um conteúdo muito rico'', afirmou a professora Elenilde Bardoni da Silva, da Escola Municipal Miguel Bespalhok, de Londrina.
''Achei muito legal a apresentação porque faz um resgate da cultura popular que muitas crianças não conhecem. Na nossa escola, sempre estamos procurando mostrar a eles vídeos sobre esse tema e também temos projetos de resgate de brincadeiras antigas. Se não fizermos nossa parte, vamos perder para a mídia televisiva e os jogos da internet'', avaliou a professora Marcia de Jesus Salvador, da Escola Municipal Salim Aboriham, de Londrina.
Segundo Daniela Fioruci, o Auto do Bumba Meu Boi foi considerado por Mário de Andrade uma das manifestações populares mais completas do folclore nacional por reunir teatro, música própria, artes plásticas e dança típica. ''Hoje nós apresentamos parte do auto, que na verdade, chega a durar até nove horas, com a participação de centenas de pessoas'', explica.
''É difícil determinar a sua origem exata, porque por todo o Brasil há versões da história, mas o que podemos afirmar com certeza é a influência da tourada espanhola, a valorização da importância do boi para o início da formação do Brasil (moer a cana, arar...) e a abordagem das etnias do índio e do negro. É uma história rica'', acrescenta.
Em quatro anos de atividade, o projeto Biblioteva Viva Itinerante, que tem patrocínio do Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic), mantém a proposta de ocupar de forma diferenciada os espaços públicos, estimulando atividades culturais e a troca de livros usados a cada encontro. Os próximos encontros do projeto acontecem nos dias 11 e 18 de novembro, das 15h30 às 18h30, na Pracinha da Rua Ulisses Rodrigues da Silva (perto das Ruas Bélgica e Inglaterra); no dia 10 de novembro, das 9h30 às 12h, na Biblioteca Municipal Infantil, e no dia 27 de novembro, a partir das 9h30, na Biblioteca Ramal Vila Nova.
Escolas municipais participantes da 3 edição do Brincar é Coisa Séria: de Londrina, Mercedes Madureira, João XXIII, Dalva Fahal Boaventura, Nina Gardemann, Hikoma Udihara, Miguel Bespalhok, Moacyr Teixeira, Salim Aboriham e Maria Irene Vicentini Theodoro; de Jataizinho, Professor Vicente Rodrigues Monteiro, Wilson Chamilete, Princesa Isabel e D. Pedro II; de Cambé, Escola Municipal Rural Ana Zichack e Pedro Tkotz.

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