Quando se junta aos oito apresentadores-mirins do ‘‘Gente Inocente’’, Márcio Garcia esquece seus 31 anos e se comporta como se tivesse uns sete. Do alto de seus 1,90 m de altura, o apresentador carioca brinca, conta piadas e faz as gracinhas típicas de qualquer menino travesso. Motivos para ele estar tão à vontade é o que não faltam. Desde que estreou no dia 9 de janeiro de 2000, o ‘‘Gente Inocente’’ ainda não perdeu um domingo sequer para a concorrência. O programa registra uma média de 18 pontos no Ibope, contra 10 do SBT. ‘‘O programa está sendo a realização de um sonho que eu não sabia que tinha. Graças a Deus, ele faz sucesso sem recorrer a sensacionalismo ou ‘bundalização’’’, orgulha-se.
A boa audiência transforma o ‘‘Gente Inocente’’ no único programa de auditório da Globo a não perder para o SBT nas tardes de domingo. Márcio Garcia, porém, não pleiteia os méritos para si. Segundo ele, o programa não faria metade do sucesso que faz sem o carisma e a simpatia de Henrique, Amanda, Peter, Matheus, Natália, Andressa, Pedro Lucas e Victor. Por isso mesmo, ele não se vê como um representante masculino da geração de Xuxa, Angélica e Eliana. Em vez de apresentador infantil, Márcio se classifica como um simples interlocutor. ‘‘Não atribuo o sucesso do programa a mim. Qualquer outra pessoa poderia estar fazendo o meu trabalho’’, minimiza.
Modéstia à parte, Márcio nunca pensou em se transformar em um ídolo da garotada. Mas, até alcançar o status de bem-sucedido apresentador infantil, penou bastante. Depois de apresentar o ‘‘MTV Sports’’, Márcio se transferiu para a Globo em 1994, quando estreou em ‘‘Tropicaliente’’, a primeira das cinco novelas em que atuou. De lá para cá, comandou ainda o malsucedido ‘‘Ponto a Ponto’’ em 1996 e substituiu Miguel Falabella à frente do ‘‘Vídeo Show’’ por dois anos consecutivos. Atualmente, Márcio não pensa em voltar a trabalhar como ator tão cedo. ‘‘Se depender de mim, o programa pode durar uns 10, 20 anos. Nunca estive tão amarradão quanto agora’’, garante, sorridente.
O ‘‘Gente Inocente’’ é o único programa de auditório da Globo a ganhar do SBT aos domingos. Como você vê isso?
O ‘‘Gente Inocente’’ está invicto até hoje. Nunca perdeu na audiência. Mas sofremos muito para deixá-lo do jeito que está. Como ele era diferente de tudo que havia na Globo, muita gente torceu o nariz: ‘‘Será que vai dar certo?’’. Graças a Deus, estreou bem e continua bem até hoje. Fico muito orgulhoso por participar de um projeto que consegue registrar uma audiência acima da esperada, sem qualquer tipo de sensacionalismo ou apelação. Ninguém precisa colocar a bunda para fora ou apresentar um homem com tromba para o programa fazer sucesso. Ele funciona sem recorrer a qualquer tipo de desgraça.
Você não gostaria que o programa fosse ao vivo para acirrar ainda mais a briga pelo Ibope?
Não sei se valeria a pena correr esse risco. Até mesmo porque criança fala muita coisa inusitada. Há perguntas que só as crianças podem fazer. Elas sabem disso e fazem. Algumas pessoas acham que é tudo armação. Mas não é verdade. A produção até sugere algumas perguntas, mas as melhores são as que elas inventam na hora. Elas sempre têm umas tiradas muito legais. Gravamos uma média de sete horas para aproveitar, no máximo, 45 minutos. Na hora da edição, selecionamos as melhores perguntas. Quero que elas se sintam à vontade. Afinal, o programa é delas. Se o time está ganhando, por que mexer nele?
Embora o programa não seja ao vivo, você é daqueles apresentadores obcecados pelos números do ibope?
É claro que isso me preocupa. Afinal, não adianta o programa ser lindo e maravilhoso e registrar apenas 10 pontos no Ibope. Eu me preocupo com a saúde do programa. No entanto, ele superou todas as expectativas de audiência, tanto as da Globo quanto as minhas. O ‘‘Gente Inocente’’ está andando nos trilhos. O trilho atual é de 15 pontos e o programa dá entre 17 e 20. Já chegamos a 25. Uma das responsáveis pelo sucesso do programa é a diretora Cininha de Paula. Recentemente, a Globo quis remanejá-la, mas não deixei. Bati o pé. As crianças também já pegaram a manha. No começo, elas ficavam inibidas diante das câmaras e da platéia. Hoje, já viramos uma grande família.
Até quando você pretende apresentar o ‘‘Gente Inocente’’?
Pelo que tudo indica, esse programa ainda vai durar um bom tempo. Por mim, ele poderia durar uns 10, 20 anos. Não me importo. Ele abriu um espaço novo na tevê. Estava cansado de ver programas muito parecidos entre si, todos com a mesma cara. Nenhum outro dá tanto espaço para a criançada quanto o ‘‘Gente Inocente’’. Enquanto o programa estiver rolando sem estresse, estou dentro. As gravações fluem com muita tranquilidade. O astral do programa é sempre leve, descontraído. Os adultos podem até chegar estressados à gravação, mas as crianças logo dão uma ‘‘equalizada’’. Quando aparece alguma delas rindo ou brincando, a gente logo se acalma. É impressionante.
O seu último papel em novelas foi o Arnaldinho de ‘‘Andando nas Nuvens’’. Você não sente saudade de atuar?
É claro que sinto. Às vezes, bate uma saudade danada. Outro dia mesmo, encontrei o Jayme Monjardim num shopping e ele perguntou se eu não queria trabalhar com ele. É claro que eu quero. Mas essa decisão não depende só de mim. Depende da emissora. O ‘‘Gente Inocente’’ é a realização de um sonho que eu não sabia que tinha. Os convidados comparecem ao programa com o maior prazer e saem de lá muito satisfeitos. Ninguém vai por obrigação. Alguns falam: ‘‘Puxa, Márcio, não sabia que era assim...’’. Outros até se emocionam. Estamos sempre superando as expectativas dos convidados. Isso é muito gratificante.
Você descarta a hipótese de conciliar as gravações do programa com as de uma novela?
Não descarto essa hipótese, mas vai depender do personagem. O problema é que você fica vendo por muito tempo o mesmo personagem no vídeo. O perigo é quando a criança vê o ‘‘Gente Inocente’’ e diz: ‘‘Ih, olha lá o Arnaldinho...’’. Já imaginou? O Arnaldinho não era exemplo para criança nenhuma. E não quero criar uma imagem ruim para o público que assiste ao programa. Pode até ser que, daqui a um ano, a minha imagem como apresentador já esteja consolidada. Aí, pode ser que eu faça uma novela. Mas, por enquanto, não há nada em vista.
Você imaginava que, um dia, fosse fazer sucesso como apresentador de programa infantil?
Não me coloco como um apresentador infantil. Eu me vejo mais como um interlocutor. É evidente que tenho um crédito como apresentador, mas não sou o único responsável pelo sucesso do programa. A minha maior preocupação é não aparecer demais. Nem atrapalhar as crianças. Gosto de deixá-las à vontade. Não gosto de ficar intervindo o tempo todo. Nem gosto de ficar traduzindo o que elas falam. Isso é muito chato. Mas também não sou um general que fica dando bronca. Todos me obedecem para caramba. Ao mesmo tempo que me obedecem, quando têm de fazer silêncio ou prestar atenção, têm toda a liberdade do mundo para perguntar o que quiserem. Sou o irmão mais velho da molecada.

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