BRILHO FUGAZ DE MACABÉA
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 17 de abril de 2001
Elisa Marilia Carneiro De Curitiba 
A Íntima Cia de Teatro estréia, hoje, às 21 horas, no Teatro José Maria Santos, em Curitiba, o espetáculo A hora da estrela, - um texto de Clarice Lispector, que já foi romance e filme. Baseado na história da imigrante nordestina Macabéa, o roteiro aborda os sonhos, ou pesadelos, da vida de uma mulher simples numa grande cidade.
Adaptada e dirigida por Sérgio Medeiros, a montagem foi viabilizada por intermédio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura. Levamos três anos, desde conhecer o texto até montar o espetáculo. Esse mergulho na obra de Clarice Lispector é oportuno e nos possibilita dar continuidade a um trabalho que é a razão de existir da Íntima Cia de Teatro, ou seja, vasculhar e perscrutar o ser humano e, manter um relacionamento participativo entre os atores, personagens e técnicos, afirma o diretor.
Dentro dessa proposta, o grupo Íntima Cia de Teatro cumpriu uma temporada de quatro meses com os espetáculos A vida é sonho e Woyzeck ou Como alguém se torna o que é..., ambos dirigidos por Edson Bueno. Com estas duas montagens, a companhia apresentou-se, durante dois meses, no Rio de Janeiro e Woyseck... fez três apresentações no Sesc-SP, no projeto Balaio Brasil. Está nos planos ficar até o meio do ano em Curitiba, com A hora da estrela e levar Woyseck... para uma temporada mais longa em São Paulo, anuncia Sérgio Medeiros.
Com A hora da estrela, o grupo volta a apresentar-se em palco italiano. As duas peças anteriores foram levadas em semi-arena. O relacionamento com a platéia é muito diferente. A semi-arena promove uma relação mais direta e próxima, define Medeiros, que conta que o grupo prepara-se para, no segundo semestre, talvez em outubro ou novembro, levar ao palco uma montagem de A metamorfose, de Kafka, possivelmente com direção de Paulo de Moraes.
Em A hora da estrela, ao analisar as angústias e medos de Macabéa, o texto de Clarice Lispector, aproxima a platéia da inabilidade do ser humano em se relacionar. Cada um de nós, em maior ou menor grau, somos uma Macabéa, define Medeiros. Uma pessoa incompetente para a vida, um projeto impossível, ao mesmo tempo que distante de nós, é facilmente identificável.
Macebéa é uma nordestina que mudou de espaço, desenraizou-se, perdendo assim o respaldo do seu grupo. Macabéa é o oposto do herói épico. Proveniente de um meio rude, órfã de pai e mãe, criada a pancadas pela tia, Macabéa não teve uma história pessoal. Felicidade para ela é um conceito oco.
De índole passiva, torna-se presa fácil dos mitos e produtos da indústria cultural. Admira as grandes estrelas de cinema, e sente-se fascinada pelos anúncios publicitários. As notícias descosidas da Rádio Relógio integram este contexto alienante, dentro do qual o cotidiano se faz num tempo meramente físico.
O cotidiano de Macabéa confirma, em cada detalhe, e seu despreparo para o enfrentamento mais elementar diante das dificuldades inerentes à vida. Pouco habilitada para o trabalho, fracassa também no amor. A história de Macabéa se resume à sobrevivência quase inumana, uma vez que, para tudo que sente e deseja, não dispõe de palavras para expressar.
Estréia do espetáculo A hora da estrela. Texto de Clarice Lispector, direção e adaptação de Sérgio Medeiros, com a Íntima Cia de Teatro, hoje, às 21 horas, no Teatro José Maria Santos, à Rua Treze de Maio, 655. A temporada permanece até o dia 6 de maio, de quarta-feira a sábado, às 21 horas e domingos, às 19 horas. Ingressos a R$ 10,00, R$ 8,00 (com bônus) e R$ 5,00 (classe artística, estudante e maiores de 65 anos). Informações: 41- 322-2628


