Briga na fila da cultura
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segunda-feira, 29 de junho de 1998
Elisa Marilia Carneiro 
Num clima de muita expectativa, cerca de 200 produtores culturais de todas as modalidades, e que ficaram na fila em frente à Prefeitura de Curitiba durante quatro noites e três dias - de quinta-feira às 16 horas até ontem às 8 horas - entregaram finalmente seus projetos concorrentes aos recursos da Lei Municipal de Incentivo à Cultura, na modalidade de Mecenato. A fila durou 50 minutos, tempo que levou para serem protocolados 340 projetos, mas o recebimento ficou aberto até as 18 horas.
Estabelecido o critério de julgamento pela ordem de chegada no protocolo, os empreendedores culturais não vislumbraram outra alternativa senão permanecer na calçada da Prefeitura, na fila da cultura - que alguns preferiram chamar de fila da vergonha - para garantir que seus projetos fossem analisados.
Como quinta-feira, quando começou a fila, houve tumulto - uns achavam injusto que cada produtor pudesse protocolar quantos projetos quisesse - foi acordado que ficariam na fila os empreendedores que pudessem permanecer no local, cada um com no máximo dois projetos. Uma lista, com 188 nomes, foi elaborada com o nome do produtor e o número de projetos que protocolaria - um ou dois.
Às 8 horas em ponto as portas da Prefeitura foram abertas e, sob um esquema de segurança da Polícia Municipal, começaram os protocolos. Logo no início um pequeno tumulto foi formado. Os números das seis primeiras fichas variavam entre um e 33. Como, se eram os primeiros? O que houve foi que as recepcionistas do protocolo, tentanto agilizar o recebimento, fizeram duas pilhas de pastas de protocolos uma com numeração de um a 30 e outra, de 31 a 60. Uma moça pegava de um monte e a outra de outro. Corrigido o problema, as fichas foram devidamente trocadas e restabeleceu-se a calma, mas só por algum tempo.
Na vez do empreendedor Maurício Cidade, ele entrou com um sócio e protocolaram 14 projetos, furando o acordo de cavalheiros. Na saída, Cidade foi agredido e teve de voltar para dentro da Prefeitura. Várias pessoas vaiavam e tentavam cercá-lo pela porta do estacionamento. Mas ele conseguiu escapar.
Foi encontrado pela reportagem da Follha2, no 3º Distrito Policial prestando queixa por agressão e pedindo proteção. Levei um tapa na cabeça e tentaram me chutar, mas o chute pegou na minha pasta. Ouvi ameaças de toda ordem, declarou. Protocolei os meus projetos porque não concordei com o acordo que fizeram. Eu nem estava lá na hora, estava com advogados tentando cancelar o edital, não assinei nenhum documento e quis garantir meu direito de protocolar todos os projetos que foram elaborados, justificou.
Da delegacia, Mauricio Cidade iria voltar a ter uma reunião com seu advogado para tentar impetrar um mandado de segurança alegando a ilegalidade do critério de ordem de chegada. Quero garantir igualdade para todos, inclusive para quem teve a dignidade de não se sujeitar a esta fila e não participou da histeria coletiva.
Outras duas pessoas também protocolaram mais de dois projetos: João Pedro (na lista não havia sobrenome) entrou com cinco e Inácio Dotto Neto, com nove. De acordo com a presidente do Sindicato dos Artistas Delci ADávila, que controlava a entrega no balcão do protocolo, uma comissão elaborará um documento solicitando que sejam sorteados dois projetos de quem entregou mais.
Outra preocupação dos produtores e artistas era que a grande maioria dos projetos que estavam em primeiro lugar na fila se referia à área de teatro, que pode ficar com quase a totalidade da verba disponível - R$ 4,3 milhões referentes a 1,4% da arrecadação prevista com cobrança de IPTU e ISS pelo município. Agora, os produtores pedem que seja definida uma porcentagem de verba para cada área, com base no que foi aprovado nos anos anteriores.


