Bressane refaz tragetória de São Jerônimo em novo filme
São Paulo, 30 (AE) - Na esfera da ficção, a presença da religiosidade também se faz sentir. O cineasta Julio Bressane já apresentou no Rio seu "São Jerônimo", versão pessoal sobre a trajetória do santo. E o diretor cearense José Araújo prepara "As Tentações de São Sebastião", exorcizando no celulóide seu passado de seminarista. Bressane diz que se sentiu atraído pela figura de São Jerônimo porque ele foi uma espécie de protótipo de humanista. Funcionou como agente catalisador da cultura do século 4, idade de ouro da era cristã. Levou existência exemplar de pensador. Passou boa parte da vida no deserto, em solidão. Lia, jejuava, escrevia. Reciclava, no contato consigo mesmo e com o divino, uma cultura de ponta adquirida em Roma. Jerônimo traduziu o Antigo Testamento do hebraico, grego e aramaico. Sua versão, em latim, ficou conhecida como a vulgata. Bressane considera que essa tradução das Escrituras na língua universal da época uniu os povos europeus fazendo da "Bíblia" um ponto de convergência entre culturas diferentes. Jerônimo chegou até nós não apenas pela vulgata, mas por uma vasta iconografia, que o retrata invariavelmente no deserto, com um leão ao lado, uma caveira, a pedra no peito. O leão representa a caridade, pois o santo teria tirado um espinho da pata do animal e amansado a fera. A caveira é a presença certa da morte, e a pedra, a penitência. Mas, para Bressane, importa menos o aspecto religioso do santo e mais a sua presença como transmissor da cultura. Esse é um dos temas obsessivos do seu cinema.
"São Sebastião" deverá ser filmado no começo do ano que vem. Com esse longa-metragem, José Araújo (autor do denso Sertão das Memórias) procura realizar um mergulho radical na vocação sincrética da religiosidade brasileira. Deseja descrever um Nordeste místico e ancestral, em seu diálogo problemático com a contemporaneidade. (L.Z.O.)





