Bressane, indicado para o Prêmio Multicultural, será homenageado em Portugal
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domingo, 21 de fevereiro de 1999
Por Carlos Alberto de Mattos, especial para a AE 
São Paulo, 22 (AE) - São Jerônimo chegou à Terra do Sol pelas mãos do cineasta Júlio Bressane, um dos indicados para o Prêmio Multicultural Estadão deste ano e homenageado esta semana, em Portugal, com uma retrospectiva no Festival do Porto. O santo europeu do século 4, o primeiro a trazer a Bíblia para o mundo ocidental, confundiu-se com os beatos do sertão brasileiro em "São Jerônimo", que será lançado ainda este semestre.
Quem conhece Bressane não espera uma simples vida de santo. O que está em foco é o "signo São Jerônimo", com seus ecos nos rituais religiosos primitivos que ainda hoje se praticam no Cariri e as liberdades "experimentais" de sua Bíblia latina, a "Vulgata". Até o cinema brasileiro se faz presente, com citações dos documentários "A Cabra na Região do Semi-árido", de Rucker Vieira, e "Romeiros da Guia", de Vladimir Carvalho e João Ramiro Mello.
O filme está pronto, mas das idéias prontas Bressane foge como o diabo da cruz. "Em qualquer situação, minha posição é sempre de desconforto", resume. Quando o caminho se afigura muito fácil, ele muda de estrada em busca da complexidade. Está longe da imagem de rebelde dos anos 60 e 70, época das fotos sem camisa e dos filmes viscerais, estridentes ou carnavalizados como "Matou a Família e Foi ao Cinema", "O Anjo Nasceu" e "A Agonia". O Bressane cinquentão é sereno, ponderado na atitude, leva uma vida relativamente reclusa, devorando páginas em "leitura desinteressada", pelo mero prazer de entrar em contato com o que chama de "livros fortes".
Aí se compreendem poetas, filósofos, teóricos, Machado de Assis, Antônio Vieira, São Jerônimo e muito mais. Nada de leituras banais ou contemporâneas. Os textos transportam-no para uma atemporalidade que tem sido a sua seiva. Desde "Tabu" (1985), o cinema de Bressane tornou-se menos selvagem e mais culturalista, de grande beleza formal, dedicado a traçar linhas evolutivas e a promover encontros entre signos das culturas brasileira e universal, deste e de outros tempos.
Converteu-se num cinema eminentemente tradutório, procurando equivalências entre literatura e imagens, pintura e cinema, música e visualidade. As traduções são outra paixão do diretor, que apresentou ao Brasil o primeiro texto sobre São Jerônimo em português: a versão de uma tese de d. Paulo Evaristo Arns sobre o santo, produzida na Sorbonne.
A permanente companhia dos livros não o afasta, porém, da convivência com amigos que muito preza, como os poetas Augusto e Haroldo de Campos e Décio Pignatari, os cineastas Rogério Sganzerla, Paulo César Saraceni, Ivan Cardoso e os irmãos Sérgio e Gilberto Santeiro. Isso sem falar na mulher, a professora de filosofia Rosa Dias, que volta e meia integra a equipe de seus filmes. Tranquilo entre seus livros e charutos, Bressane inflama-se apenas com o tropel de idéias que lhe cruza a cabeça. Foi com a camisa empapada de suor na varanda de seu apartamento no Leblon, transpirando pela "excitação de tirar isso tudo de dentro", que ele falou sobre a atualidade do cinema brasileiro, experimentalismo, antropofagia e chanchada, traduções e cópias malfeitas, manadas a caminho do matadouro e a função do intelectual. (Segue entrevista)


