Francelino França
De Londrina
A montagem do espetáculo ‘‘2 Brecht’’, pela Nômade Cia. de Teatro, leva irremediavelmente o espectador à reflexão. A retomada por essa forma de teatro, baseado na lucidez crítica, configura num primeiro fator a se refletir. A busca por textos clássicos se tornou uma constante nesse incerto fim de milênio. Muitos grupos, no entanto, acabam transformando esses clássicos em mero entretenimento.
Das duas peças de Bertolt Brecht escolhidas pela Cia. - ‘‘Aquele que Diz Sim e Aquele que Diz Não’’ e ‘‘O Mendigo ou o Cachorro Morto’’ -, a primeira é superior. Causa uma certa irritação no espectador, em função da repetição da história com dois finais diferentes. O filho em busca de recursos para a mãe debilitada, não consegue prosseguir a travessia da montanha, por problemas de saúde. Os companheiros questionam: eliminá-lo, como impera a tradição arbitrária local, ou partir para um caminho mais humano na solução do problema?
Brecht, nesse momento, convida o espectador a pensar maduramente sobre as situações limites da vida. Por mais extremadas que sejam, podem ser mutáveis. Quem não está apto a ‘‘compactuar’’ com o grupo deve ser eliminado? O despudor na mudança de opinião é o melhor caminho, segundo o autor.
Já a segunda peça ‘‘O Mendigo ou o Cachorro Morto’’ resvala no maniqueísmo do mendigo erudito e o rei ignorante. O mendigo acumulou conhecimento e tem muita presença de espírito no confronto com o poderoso e confuso soberano. Ele se aproveita disso, apontando os incontáveis defeitos do rei (e assim se isenta de seus próprios defeitos). O risco de se rotular compulsivamente é o de cair em julgamentos superficiais e enganosos.
Como se fosse um entreato, os encenadores optaram por notas explicativas sobre a trajetória do dramaturgo. De posse de um fumegante charuto, cada ator coloca sua porção Brecht, dando seu colorido ao autor. Uma espécie de marca registrada do autor alemão era justamente falar diretamente à platéia. Ao mesmo tempo, o narrador é uma armadilha. E os atores escorregaram nessa armadilha facilmente, tentando ser agradáveis, tornando-se artificiais.
Bertolt Brecht tinha o maior apreço pelo teatro vivo, revolucionou a arte teatral, concretizando as bases definitivas do teatro épico. É daí que surgiu o efeito conhecido por distanciamento crítico (V-Effekt), tão alardeado e pouco compreendido.
Num certo sentido, é como se o ator não devesse se contaminar da personagem, e o público não devesse vivenciar uma catarse. Público, personagem e ator estão inseridos na busca e na dúvida. Brecht não admitia que o espectador pudesse embarcar emotivamente na ação da peça. É a reflexão em detrimento à magia. Teatro não era escape ilusório, segundo Brecht. Na forma épica, o espetáculo encarna a ‘‘ação’’.
Há uma aparente confusão entre teatro dramático e épico na condução do espetáculo da Nômade Cia. de Teatro. Aí se insere mais uma reflexão. Será que os encenadores assimilaram a proposta brechtniana? Isso denuncia uma ausência de pesquisa de linguagem cênica, principalmente para a montagem de um autor eminentemente clássico.
Na peça ‘‘Aquele que Diz Sim e Aquele que Diz Não’’, os atores não conseguiram se distanciar do dramalhão mexicano na cena em que a mãe, aluno e professor se encontram. Esse era o momento ideal para os atores se ‘‘despirem’’ da personagem. Em outros momentos, em que eles precisavam se valer desse recurso, o diretor Donizetti Buganza propõe um jogral, recaindo numa opção ginasiana, descabida para um grupo que pretende crescer no cenário teatral londrinense.
Para se entender o que é ‘‘despir’’ da personagem, pode-se comparar como se alguém estivesse por trás piscando o olho dizendo que aquilo tudo é ficção. O ator Paulo Munhoz, como menino e imperador, é o que mais se aproxima dos clichês dramáticos do garoto ingênuo e do rei altivo, embarcando emotivamente na caracterização de cada personagem. Carla Diacov - mendigo e professor - dá sinais de entendimento da proposta brechtniana, quando se confronta com o imperador. Flávia Caetano - mãe e estudante - escorrega na dicção, e necessita de mais embasamento teatral para enfrentar um clássico.
A Nômade Cia. está carregando um peso maior do pode suportar no momento, apresentando uma montagem ainda carente de se nutrir da vigorosa proposta de Bertolt Brecht.
• ‘‘Dois Brecht’’, espetáculo com a Nômade Cia. de Teatro. Últimas apresentações da temporada de estréia - hoje e amanhã, às 21 horas, no Teatro Zaqueu de Melo (Avenida Rio de Janeiro, 413), em Londrina. Textos: Bertolt Brecht. Direção: Donizetti Buganza. Elenco: Paulo Munhoz, Flávia Caetano e Carla Diacov. Os ingressos custam R$ 10,00 (estudantes, terceira idade e classe teatral têm 50% de desconto). Venda antecipada pelo telefone (43) 996-1056.

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