Brechet em dose dupla
Jackeline Seglin
De Londrina
Textos do dramaturgo alemão alinhavados com fatos de sua vida moldam o espetáculo Dois Brecht, que a Nômade Companhia de teatro encena a partir de hoje
A Nômade Companhia de Teatro, de Londrina, faz hoje a pré-estréia de seu novo espetáculo - Dois Brecht, que fica em temporada até o dia 1º de agosto, sempre de quinta a domingo, às 21 horas, no Teatro Zaqueu de Melo. A montagem reúne dois textos de Bertold Brecht e é alinhavado com uma biografia sua. Três atores - Paulo Munhoz, Flávia Caetano e Carla Diacov - entram em cena como Brecht e após cinco minutos tornam-se personagens da peça Aquele Que Diz Sim, Aquele que Diz Não, na qual o autor enfoca a capacidade do homem em mudar o seu destino.
Novamente os atores despem-se dos papéis e retomam a história de Brecht, para então anunciar o texto seguinte, O Mendigo ou o Cachorro Morto, que enfoca um jogo de poder.
O diretor Donizetti Buganza explica que a intenção do grupo neste espetáculo é trabalhar com estudantes do 2º grau. Por isso a preocupação de explicar quem foi Brecht, aproximando o máximo possível o público dos atores, diz. Por outro lado, tínhamos medo de tornar o espetáculo chato. Por isso, os atores buscaram um pique que desse mais agilidade ao texto. Na verdade, eles brincam de fazer Brecht.
Escrita em 1930, Aquele Que Diz Sim, Aquele Que Diz Não conta a história de um estudante cuja mãe fica doente. Para buscar ajuda médica, ele viaja com um professor que faz pesquisas em outras cidades. No caminho, o estudante passa mal e descobre um costume nessas viagens: a pessoa que fica doente é deixada para trás. Inconformado, ele pede que o matem. Mas esta é apenas uma das duas versões da peça. Na segunda, o menino quebra o costume. É aí que Brecht coloca o homem como elemento de transformação da sociedade, alerta o ator Paulo Munhoz.
A segunda peça - O Mendigo ou o Cachorro Morto - é de 1919 e traz uma particularidade: estreou 11 anos após a morte de Brecht. É um texto muito poético, no qual o jogo do poder entra em cena, conta Buganza. Esta história mostra o confronto verbal entre um poderoso imperador e um mendigo que vive a filosofar. O mendigo vomita muita coisa que ninguém, até então, tinha coragem de dizer ao imperador, completa a atriz Carla Diacov.
Paulo Munhoz, que também é produtor do espetáculo, conta que escolheu trabalhar com Brecht porque se apaixonou pelo efeito do distanciamento desenvolvido pelo escritor. Para estimular o senso crítico do público, o autor propunha tornar claro o artifício da representação cênica e, consequentemente, destacar os valores ideológicos do texto. Brecht sugeria uma representação objetiva e racional, que excluía a catarse e a purgação das paixões humanas.
Na direção, Donizetti Buganza buscou ser fiel à linguagem de Brecht e ao efeito do distanciamento, no qual o escritor usa o teatro como ato político. No espetáculo, o grupo propõe uma separação entre ator/personagem instigando uma reflexão no público. Dois Brecht tem uma hora de duração.
O cenário (um painel de textura de concreto com formas abstratas, uma pirâmide e três cadeiras de ferro) e os figurinos foram concebidos por Gelson Amaral, que optou pela funcionalidade e praticidade dos elementos cênicos. A trilha sonora foi composta por Luciano Silva.
- Dois Brecht, com a Nômade Companhia de Teatro. Pré-estréia hoje, às 21 horas, no Teatro Zaqueu de Melo (Avenida Rio de Janeiro, 413). Temporada até 1º de agosto, de quinta a domingo, no mesmo horário e local. Direção: Donizetti Buganza. Elenco: Paulo Munhoz, Flávia Caetano e Carla Diacov. Iluminação: Paulo Munhoz. Figurinos e cenário: Gelson Amaral. Trilha sonora: Luciano Silva. Operadora de luz: Mary Ellen Vieira. Operador de som: Sandro Tagliari. Contra-regra: Ester Bento. Patrocínio: Lei Municipal de Incentivo à Cultura, Caixa Econômica Federal e Sigma Vestibulares. Ingressos a R$ 10,00 (vendas antecipadas, estudantes, terceira idade e classe teatral têm 50% de desconto).





