Através da atuação de Mário Schoemberger, da Cia. Bravos Atores de Curitiba, o monólogo ‘‘O Ventre do Minotauro’’, de Dalton Trevisan, exibe sua força dramática no Filo
Dalton Trevisan nos enganou. O minotauro dos labirintos curitibanos se esconde na pele de contista e na verdade se revela um notável dramaturgo, como provou a Cia. Bravos Atores, de Curitiba, no Filo 2001. ‘‘O Ventre do Minotauro’’, espetáculo que reuniu 46 contos do escritor, surpreendeu pelo inusitado dom dramatúrgico de Trevisan. Marcelo Marchioro e Mário Schoemberger, diretor e ator do espetáculo, reuniram no monólogo os três sentimentos que produzem o inferno interior: o medo, a vergonha e o ciúme.
Ao escolher os contos-dramas de atitude confessional, eles instauraram um pacto com o público. Trevisan genialmente preserva um capital de vivências anônimas nos subterrâneos da metróplole provinciana. O olhar oblíquo do vampiro de Curitiba penetra no diário íntimo de personagens à beira de um ataque de nervos.
No monólogo, as mil faces do ator Mário Shoemberger revelaram o sarcasmo curitibano. Ator e texto se bastam, quase não há subterfúgios cênicos amasiando/amaciando o público. O ator metralha para o invisível, inflando a imaginação. Enquanto Shoemberger interpretava, o caleidoscópio de personagens ‘surgia’ no palco, tamanha a força descritiva de Trevisan. Uma curitibana infeliz, turbinada com licor e vinho de laranja, conta sobre o marido que a rejeita. Ela vai talhando a personalidade nefasta do marido, e ao final, todos sentem ódio daquele homem imaginário.
A montagem injeta no público uma fome de leitura (ou releitura) da obra de Dalton Trevisan. Toda a vitalidade dramatúrgica do enigmático homem de Curitiba não seria percebida sem a magnitude interpretativa de Mário Shoemberger, que consegue pontuar existências tão díspares com apenas um movimento de cabeça. A concisão dramatúrgica da obra trevisaniana faz lembrar uma história ocorrida com o educador Paulo Freire. No nordeste brasileiro, durante uma viagem, ele se encontrou com um artesão analfabeto que fazia em madeira miniaturas de elefante. Intrigado, Freire perguntou: como o senhor consegue fazer um elefante tão perfeito e tão pequeno? O homem, pacientemente, respondeu: ué, é só retirar aquilo que não é elefante. Dalton Trevisan parte do mesmo princípio, retira tudo o que não é universal de sua literatura.

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