Brasília tem montagem de "Carmen"
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quarta-feira, 29 de março de 2000
Por Carolina Brígido, especial para a ae 
Brasília, 30 (AE) - Sem tradição em espetáculos grandiosos, Brasília terá a chance de assistir à ópera "Carmen - montagem com ingredientes de superprodução - a partir de amanhã (31), no Teatro Nacional Cláudio Santoro. Os figurinos e cenários vieram da Itália. Um dos mais renomados coreógrafos da Espanha, Antonio Marquéz faz parte do elenco, integrado ainda por cantores com vozes de alta qualidade. No papel principal da popular ópera de Bizet, a mezzo-soprano paulistana Céline Imbert dá um show à parte. "Estou introduzindo novos fatores psicológicos em Carmen", conta Céline, que já interpretou a cigana seis vezes. "Ela está mais sofrida."
Segundo a diretora-geral da ópera e diretora artística do Teatro Nacional, Asta-Rose Alcaide, "Carmen" está orçada em aproximadamente R$ 400 mil. Ela já esteve à frente de 11 óperas no teatro, mas confessa que "nenhuma tinha essa grandiosidade". A produção envolve 300 pessoas. Estarão no palco 80 músicos da orquestra sinfônica do teatro, 16 solistas, 54 coristas, 30 integrantes do coral infanto-juvenil, 20 bailarinos e 30 comparsas (figurantes). O espetáculo inaugura uma temporada de quatro apresentações de ópera no teatro.
Embora criada no século 19 por um francês e escrita no idioma francês, "Carmen" se passa na Espanha. A ópera conta a história de uma cigana admirada e cortejada pelos homens. O enredo trata de amor, paixão, ciúme, vingança e traição - todos sentimentos atribuídos com frequência aos latinos. Ex-assistente de Antonio Gades e principal coreógrafo do Balé Nacional da Espanha, Marquéz ofereceu à ópera o toque flamenco. "Brasileiro tem muito de espanhol", acredita. "Nós temos um entendimento corporal e de sensibilidade que dá muito certo." Na sua opinião
isso faz da Carmen" brasileira uma mulher "mais sensual, mais forte e mais suave".
Solistas - As vozes foram cuidadosamente selecionadas. Céline empresta a Carmen uma aura sedutora e triste - embora a personagem esconda toda sua amargura no canto e na dança, segundo a cantora. "Ela usa a música e o amor como alívio para a dor ancestral que sente. Essa nova faceta de Carmen me deu mais subsídio para atuar com verdade." Dividem o palco com Céline outros solistas importantes, como o tenor italiano Sergio Panajia e o barítono paulista Sandro Christopher.
Christopher é cantor profissional há 18 anos. Depois de morar 12 anos em Nova York, ele volta a fixar residência em São Paulo. "Finalmente nós estamos começando a ter condições de trabalhar no Brasil", observa. Christopher, que começou a carreira em Brasília, cita a falta de boas opções culturais na cidade. "É um público carente de arte, principalmente de ópera."
Potencial - Na opinião do maestro da sinfônica do teatro
Silvio Barbato, responsável também pela direção musical e artística do espetáculo, a ópera não é um estilo tradicional em Brasília por falta de vontade política. "Brasília está à mercê de mudanças políticas muito fortes", diz o regente, que já tentou emplacar outras vezes temporadas semelhantes na cidade.
Os participantes de "Carmen" acreditam, no entanto, que existe um público interessado em apresentações de óperas em Brasília. "É necessário educar o público, mas ele existe potencialmente", afirma Luiza Francisconi, uma das solistas.
O regente do coro lírico, Marconi Araújo, ressalta a importância de se ter um teatro de ópera em Brasília. "Já estava na hora de a cidade ter sua representatividade lírica no cenário nacional", diz Marconi. "Somos o centro do País." O maestro acredita que haja espaço para a popularização da ópera na capital do Distrito Federal, mesmo que a tradição do estilo seja essencialmente européia. "A cidade é muito eclética culturalmente e socialmente e isso faz com que a ópera se popularize aqui."


