Brasília conntinua sem grandes favoritos
PUBLICAÇÃO
domingo, 28 de novembro de 1999
Por Luiz Zanin Oricchio 
Brasília, 28 (AE) - Mais quatro filmes movimentaram o fim de semana do Festival de Brasília: "São Jerônimo", de Julio Bressane, "Gêmeas", de Andrucha Waddington, "Hans Staden", de Luiz Alberto Pereira, e "No Coração dos Deuses", de Geraldo Moraes. Interessantes, mas ainda não apareceu o grande filme, aquele que todos sabem que vai ganhar.
"Gêmeas", versão para a tela de um relato de Nélson Rodrigues, protagonizou na sexta-feira uma das noites mais agitadas do festival. Talvez pela aura dos filmes da Conspiração
a badalada produtora carioca, junto ao público jovem. Talvez pela presença da protagonista, a atriz Fernanda Torres, no cinema. O certo é que o Cine Brasília, mais uma vez esteve superlotado, e com audiência indócil. Essa platéia acompanhou o longa com atenção e aplaudiu bastante bem o seu desfecho inesperado.
Andrucha tem definido "Gêmeas" como um comédia que acaba em tragédia. O universo rodriguiano está lá, em aparência. Na obsessão pelas "partes escuras" que toda família esconde, na aproximação entre bodas e funeral (já presente desde Vestido de Noiva), no jogo de ressentimentos que parece risível até acabar explodindo em violência . O ambiente é a pequena burguesia da Zona Norte carioca, com sua moral miúda, ambígua e ressentida.
Toda essa temática repetitiva aparece um tanto deslocada nesse filme algo fashion, que apaga na mise-en-scne e na direção de arte a "sujeira" do mundo mental evocado por Nélson Rodrigues. Há algo de publicitário no tom em que a história é levada - e esse algo contribui para deixar o pathos do texto em segundo plano, como se fosse visto através de um vidro fosco, que apagasse seus contornos. É como um Nélson Rodrigues traduzido em linguagem da "Rede Globo" - quer dizer, para grande consumo sem sustos ou dificuldades.
O segundo longa da noite produziu efeito oposto ao primeiro. "São Jerônimo", de Julio Bressane, foi assistido por uma boa platéia (parte do público foi embora no intervalo, como de hábito) e, no final, provocou divisão: muita gente aplaudiu, mas houve quem vaiasse. Costuma ser assim com os filmes de Bressane e não é agora que o número dos que comem o fino biscoito que ele fabrica iria aumentar. Ele busca a dificuldade lá onde outros cineastas preferem aplainar arestas. Por isso mesmo, pediu "certa compreensão" à platéia, para um filme que classificou como "meio enrugado".
Não se trata tanto disso. Mas, de fato, é preciso certo desprendimento, algum desarmamento temporário do espírito prático, para acompanhar esse trabalho que deseja ir à essência mesma das coisas, buscando a materialidade da atividade cultural de Jerônimo na maneira como tudo é fotografado, como os volumes são distribuídos (como na boa pintura), como os sons se agregam à composição do todo. Um filme extraordinariamente plástico, exigente com a platéia porque exigente consigo mesmo.
"Hans Staden"", de Luiz Alberto Pereira, foi recebido friamente pelo público, isso já na noite de sábado. Trata-se de uma reconstituição honesta, fiel (ao que se saiba), e bem construída da permanência do aventureiro alemão Staden com os índios tupinambás no Brasil do século 16. Staden passou nove meses prisioneiro e esteve a ponto de ser devorado, mas usou de várias artimanhas e conseguir escapar. O filme aparece exatos 30 anos depois de "Como Era Gostoso o Meu Francês", em que Nelson Pereira dos Santos contava a mesmíssima história de Staden, mas tomando liberdade ficcional e ousando mais.
O segundo longa da noite, "No Coração dos Deuses", de Geraldo Moraes, é um infanto-juvenil sobre um grupo de aventureiros que tenta redescobrir o mitológico tesouro de Martírios e acaba caindo no século 17, onde encontra-se com a bandeira de Fernão Dias. Tratamento correto, meio convencional e um tanto deslocado num festival de cinema.


