Apenas o rock’n’roll tranquilizou anteontem a platéia brava que compareceu anteontem à cidade do rock. O show conjunto de Ira! e Ultraje a Rigor foi o único, entre os brasileiros, a contar com o entusiasmo da platéia que esperava Oasis e Guns N’ Roses com hormônios à flor da pele.
Antes, hostilizado por milhares de não-fãs com copos e garrafas (algumas cheias de terra), o baiano Carlinhos Brown revidou com irritação crescente . ‘‘O dedo vocês podem enfiar no traseiro’’, chegou a gritar, deixando de lado a boa educação.
O sucesso do show ‘‘dois em um’’ loteado pelas duas bandas paulistas da Abril provou que a questão não era de nacionalismo, como Brown insinuou em discurso e cantarolando, furibundo, o Hino Nacional do Brasil.
A tempestade de objetos atirados em Carlinhos Brown era fruto da escalação burra (ou esperta?) promovida por Roberto Medina para o time nacional do terceiro dia do evento. Já na primeira música, ‘‘Omelete Man’’, Brown começou a se exasperar: ‘‘Vamos parar de jogar coisa para cima e se concentrar no show’’.
‘‘Uma Brasileira’’, sucesso dele com os Paralamas, não resolveu nada, e dois caminhões-pipa passaram a atirar água na multidão, como forma de refrescar os ânimos. O arremesso ao alvo parou, mas Brown se irritou de novo: ‘‘Pára essa água, tá dispersando a atenção do show’’. Mais vaia. A falta de água e os hits ‘‘A Namorada’’ e ‘‘Rapunzel’’ (sucesso com Daniela Mercury) provocaram mais chuva de copos e garrafas de plástico. ‘‘Eles querem rock’’, disse para si mesmo, antes de começar a cantar, quase só, o Hino Nacional.
O confronto seguiu nesse pique, a ponto de Brown reclamar que a hostilidade era coisa de ‘‘ignorante’’, ‘‘sem juízo’’, ‘‘que não pensa’’.
Ora, Carlinhos devia saber que não é bem assim. Há uma década, o pop baiano – da axé e, numa ponta mais elaborada, seu som tipo funk baiano de roda – massacra os ouvidos do Brasil com um estilo maciço como concreto.
O festival jamais deveria ter colocado seu show esforçado e bem-intencionado num panelão desses, mas o artista devia compreender que se um dia é da caça, o outro pode não ser. Senão, se arrisca a se nivelar aos de fato ‘‘ignorantes’’, ‘‘sem juízo’’, ‘‘que não pensam’’.
Mais que Ira! e Ultraje e um pouco menos que Brown sofreu a banda mineira Pato Fu, que entrou no palco principal às 18 horas de ontem, teve a honra de ser a primeira banda brasileira de veia pop-rock que pertence à geração pós-Rock in Rio 1 e 2 a pisar na versão 2001 do festival.
Fernanda iniciou cantando com o microfone totalmente distorcido, em masculinizado estilo vocalista de heavy metal. Se fosse sério, ficava sem graça. Como ironia e simpatia, desconcertou e desarmou os seguidores do demo, quer dizer, do Axl.
Adiante, Fernanda disse-se honrada em tocar no mesmo chão que Liam Gallagher (Oasis) e Axl Rose. A massa aplaudiu. Mas era ironia, pois logo na sequência a banda entrou com o mais cândido dos baladões, ‘‘Canção pra Você Viver Mais’’ (98).
Insinuou que o público estava ali, também, para ver Carlinhos Brown, Ira!, Ultraje a Rigor e eles, Pato Fu, no que recebeu os muxoxos da metaleira. E já saiu cantando: ‘‘Hoje as pessoas vão morrer, hoje as pessoas vão matar’’, de véu à Nossa Senhora e sua pequena e simpática vozinha. Deboche puro. Fosse como fosse, é claro que não havia o que aliviasse o equívoco de convocação. Mas o Pato Fu saiu jantado com dignidade.

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