Brasileiros, franceses e russos mostram suas obras
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sexta-feira, 18 de maio de 2007
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> De Cannes<br> Especial para a Folha 2 
Ainda se comenta por aqui a abreviada, simples e quase burocrática cerimônia de abertura desta sexagésima edição, conduzida na quarta à noite pela atriz Diane Kruger. Os boatos dão conta de que a organização da mostra preferiu deixar as coisas menos ostensivas, mais clássicas e comedidas no meio da semana para aumentar a expectativa quanto à jornada de amanhã, dia oficial do aniversário do Festival de Cannes.
Neste domingo de celebrações, dezenas de atores e atrizes e mais 35 cineastas, de Wim Wenders a Roman Polanski, de Claude Lelouch a Walter Salles passando por Chen Kaige e David Cronemberg, estarão subindo a mitológica escadaria de veludo vermelho do Palais des Festivals para a projeção de ''Chacun son Cinéma'', filme coletivo com esquetes assinados pelos mesmos 35 realizadores, que vão mostrar qual enfoque cada um deu ao tema da sala de cinema. Em seguida, 1500 convidados participam noite adentro da tradicional festa promovida pelo Canal +.
Depois de quatro anos de ausência da Croisette, os russos estão de volta à seleção competitiva. Andrey Zvyagintzev, que em 2003 surpreendeu em sua estréia no longa ganhando o Leão de Ouro em Veneza com ''O Retorno'', resolveu enfrentar em Cannes o estigma do segundo filme. ''The Banishment'', embora sem ser a gratíssima surpresa do primeiro, confirma que o diretor é alguém para se seguir com atenção. No caso dele, um percentual de expectativa e confiabilidade transfere-se agora para um terceiro opus.
Baseado em romance de William Saroyan, o filme é drama intimista quase de proporções épicas, com desdobramentos catastróficos, uma espécie de tragédia que se explicaria em parte por elementos atávicos e pelas imutáveis forças do destino.
É uma narrativa familiar e ao mesmo tempo ritual iniciático e de passagem entre estados emocionais. Homem, sua mulher e dois filhos saem da cidade e vão para o campo, para a casa da família dele e cercados pela natureza mais exuberante, natureza que afinal vai provocar a explosão de sentimentos conflituosos no casal em crise. Um cenário eterno que provoca o olhar gerador de acontecimentos imprevisíveis a partir de segredos e revelações.
Visivelmente - e para alguns críticos ''visivelmente'' até demais - inspirado por Antonioni, Bresson e mais obviamente por seu já falecido compatriota Andrei Tarkovski, este jovem Zvyagentsev assumiu durante a entrevista coletiva que tenha ''retirado impressões, experiências e a educação do olhar desses e de outros autores, ''mas eu seria incapaz de fazer imitações''.
Os franceses, que nos últimos não têm chegado com potencial suficiente para ambicionar nenhum dos prêmios importantes, por enquanto ficam mesmo na posição de quem aplaude. ''Les Chanson d'Amour'', musical de inspiração precária dirigido por Christophe Honoré, recebeu aquela famosa acolhida protocolar. Não se desgosta inteiramente, mas daí até elogios rasgados a distancia é imensa.
O filme é desenvolvido em três tempos de amor: o encontro, a ruptura, os reencontros. Homem divide sua vida entre duas mulheres, num ''ménage entre três boas vidas'', definiu Christophe. Mas uma das mulheres morre, e a ruptura é fatal. Nasce um novo amor, agora em chave gay. E por aí o filme caminha, com letras (discutíveis) e músicas (sofríveis) a comentar as aventuras sentimentais dos personagens. Olvidável à saída da sala de projeção.
O Brasil fez sua estréia na programação da mostra com a exibição do longa
''A Via Láctea'', de Lina Chamie, na Semana Internacional da Crítica. Foram quatro sessões, todas registrando muito bom público. O filme, com Marco Ricca, Alice Braga e Fernando Alves Pinto nos principais papeis, foi definido aqui por sua diretora como ''uma história sobre o amor, o medo e a perda''.
Ricca é o tímido quarentão Heitor, escritor, professor e em plena crise profissional e de sentimentos. Há três anos namora a expansiva Julia (Alice Braga), ex-atriz de teatro e veterinária. O filme, em boa parte ambientado no caótico trânsito de São Paulo, abre com uma briga entre os dois, por telefone. Tentando consertar as coisas, ele vai até ela, mas a viagem pelas ruas da capital é complicada.
''A Via Láctea'' é um filme aparentemente desestruturado porque se nutre essencialmente dos desencontros entre os personagens, e trabalha esta aparência de caos com uma linguagem que não abre mão da modernidade. A desordem urbana serve bem como metáfora da desordem afetiva, que muitas vezes desaba sem motivo aparente e se torna muito difícil retirar dos escombros.


