São Paulo, 28 (AE) - São dois times, um representando a antiga colônia e outro o velho colonizador. A "Mostra do Redescobrimento - Brasil 500 Anos" escolheu 11 artistas brasileiros e 11 portugueses para fazer reinterpretações artísticas da "Carta de Caminha", o mais simbólico dos documentos do Descobrimento. Os artistas brasileiros escolhidos são José Roberto Aguilar, Flávio Emanoel, Luís Zerbini, Paulo Pasta, Siron Franco, João Câmara, Glauco Rodrigues, Rosângela Rennó, Emmanuel Nassar, Karin Lambrecht e Antônio Hélio Cabral.
Os portugueses são álvaro Lapa, Ana Vidigal, Costa Pinheiro, Fernando Lemos, Graça Moraes, João Vieira, José de Guimarães, Julio Pomar, Julio Resende, Nikias Skapinakis e Noronha da Costa. A curadoria da parte brasileira é de Emanuel Araújo, da Pinacoteca do Estado. A portuguesa é de Fernando Antônio Baptista Pereira, do Museu de Setúbal.
Antônio Hélio Cabral brincou com um retrato imaginário de Pedro álvares Cabral e seu brasão de família, sobrepondo um e outro. Paulo Pasta pintou duas grandes gotas que - ao mesmo tempo em que podem ser referências tanto à água ou ao sangue derramado - também fazem uma alusão ao tempo. João Câmara estampou figuras de índios em seis pranchas de madeira - no verso, está a própria madeira bruta, um "trompe loeil da árvore".
"Todos trabalharam com uma liberdade incrível", diz Emanuel Araújo, que procurou escolher os nomes dos artistas com uma perspectiva também geográfica. Aguilar, Antônio Hélio Cabral e Paulo Pasta são de São Paulo. Luís Zerbini e Rosângela Rennó são do Rio. Karen Lambrecht é gaúcha. João Câmara e Flávio Emanoel são de Pernambuco. Emanuel Nassar é do Amazonas.
"Em toda a representação iconográfica daquele período está a tentativa de ver o outro", argumenta Araújo. O "descobrimento do outro" é o principal eixo da curadoria que - além da própria carta e de seus desdobramentos artísticos - também selecionou objetos portugueses do século 16 para ilustrar essa idéia.
Entre os objetos mais antigos estão cerca de 40 navetas - pequenos vasos com feitio de um barco, em que se costumava acender o incenso nas festas de igreja. A mais antiga é uma réplica de uma naveta portuguesa que representa o nascimento de Jesus com ilustrações do índio brasileiro e de Pedro álvares Cabral. Detalhe: o objeto é de 1510. A maior parte das obras vem de museus e coleções particulares de arte sacra de São Paulo, Rio, Bahia e Pernambuco. Uma das navetas, de 1630, pertence ao senador Antonio Carlos Magalhães.
"Eu procurei chegar ao âmago da arte portuguesa do século 16 e à produção artística daquele período", diz Emanuel, que também exporá nos cerca de 2 mil metros quadrados retábulos, mapas, reproduções, bandejas, máscaras e outros objetos. O retábulo mais antigo data de 1505. Os objetos remontam a um período que vai de 1505 a 1520. O artista plástico baiano Carybé também terá o trabalho que fez nos anos 60 e 70, de ilustração da Carta de Caminha, exposto na mostra.
O visitante que chegar ao Pavilhão Manuel da Nóbrega, a partir do dia 23 - quando começa a mostra -, encontrará na rampa de acesso grandes velas, que reproduzem a sensação de se estar entrando num barco, segundo Araújo. Ao mesmo tempo, as janelas abrem a vista verde do Ibirapuera. "A idéia é relacionar obra de arte, arquitetura e espaço em si", afirma o curador.
A Carta de Caminha terá diversas formas de apresentação. O original estará numa vitrine climatizada oposta a uma parede dourada, "para realçar sua imponência". Em painéis, são reproduzidas, lado a lado, a escritura gótica da carta original e sua tradução (versão de Paulo Roberto Pereira). Araújo diz que a idéia é contextualizar a carta para que o visitante seja tocado por sua presença.
"Quem não quiser vê-la poderá ouvi-la", informa o curador. Bastará entrar em uma oca multimídia instalada no local
que terá a voz gravada do ator Paulo Autran lendo trechos do documento. "É preciso ter alguma reverência, já que esse é o documento brasileiro, algo que fala muito do Brasil", avalia.