Ranulfo Pedreiro
De Londrina
Olinda, Recife e Montreux ganharam uma costura musical arrematada na cultura nordestina com um representante que se avoluma no palco. Alceu Valença está lançando ‘‘Todos os Cantos – ao Vivo em Olinda, Recife e Montreux’’. O novo álbum sai pela Abril Music engordando a lista de CDs ao vivo lançados neste fim de ano pela MPB.
O disco tenta contemplar aspectos variados da carreira do compositor, mas não se restringe a uma coletânea. Há inéditas e faixas pouco lembradas, além de hits como ‘‘Tropicana’’, ‘‘Como Dois Animais’’ e ‘‘Anunciação’’.
Um dos aspectos positivos é que, do assovio ao solo, Alceu Valença se dá bem ao vivo. Arraigado ao frevo e ao maracatu, o cantor não se afasta da música nordestina mesmo quando se aproxima do rock, do blues ou do jazz. Neste álbum ao vivo, o instrumental aparece contido em faixas em que a voz ganha destaque, ampliando recursos interpretativos. Graças à mixagem, fica difícil saber onde cada faixa foi gravada.
‘‘Eu quis fazer um disco vivo, ao vivo, com inéditas e canções que eram fundamentais, que o ouvinte se debruçasse sobre elas. Mas também com coisas populares para dançar, para viajar no som, para pular e se esbaldar com os frevos’’, revela o compositor em entrevista à Folha2, por telefone.
Alceu Valença traz referências que vão dos repentistas ao pop contemporâneo. Desse amálgama surgiu um estilo personalizado. ‘‘Quero mostrar todas as possibilidades do meu canto, que é múltiplo’’, salienta.
O repertório possui inéditas como ‘‘Dolly Dolly’’, ‘‘Vai Chover’’, e ‘‘Ruge Ruge Rouxinol’’, um fado com sotaque nordestino. Há ainda ‘‘Senhora Dona’’, ‘‘Maria dos Santos’’, ‘‘Cabelo ao Pente’’, ‘‘Íris’’, ‘‘Girassol’’, ‘‘Anunciação’’ e ‘‘Anjo Avesso’’, as duas últimas em pique de Carnaval, além das incidentais ‘‘Belle de Jour’’ e ‘‘Bicho Maluco Beleza’’.
‘‘Em Montreux, o que me deixou motivado foi tocar na sala Stravinski, com um estúdio e uma acústica fantástica. Aí eu juntei Montreux com o Carnaval de Olinda e Recife’’, afirma.
O disco torna explícita a mistura de gêneros que se aprimorou bem antes do crossover virar sucesso entre as bandas pop/rock. Olhando para a atualidade, Alceu Valença não poupa farpas: ‘‘Essa nova geração procurou esconder o referencial, e só revelou depois que atingiu o estrelato. A minha geração achava normal mostrar influências.’’
As críticas também se voltam contra a música comercial e sua frequência na mídia, em detrimento de quem compõe sem compromisso com o mercado. ‘‘Não pertenço à indústria cultural, hoje sou livre e independente. Na década de 80 fui quase perseguido, os diretores tentavam me influenciar, mas nunca caí. Eu não capitulei aos canhões do dinheiro e da fama. Arte é liberdade, é prazer e cultura. Em determinado momento, as rádios passaram a apostar no descartável.’’
O cantor está fazendo vários shows e avisa que virá para o sul em breve. Ao mesmo tempo, finaliza o álbum inédito ‘‘Terra à Vista’’, que ainda não tem data para sair. Segundo Alceu Valença, é um CD voltado para o descobrimento e que procura acentuar e demonstrar as raízes ibéricas, africanas e indígenas do Brasil.
‘‘Minha carreira foi construída na base da honestidade, da sinceridade e brasilidade. Nasci no sertão, vi e ouvi os anônimos cantando as canções que se tornariam o objeto de trabalho de Gonzagão, ouvi Jackson do Pandeiro, absorvi a cultura urbana e litorânea’’, avisa.
Dentro dessa construção estética, Alceu Valença preserva os próprios valores sem mudanças radicais ou apelos consumistas, mostrando uma produção coerente com sua história, desenvolvida em seus próprios rumos. E que, apesar das tempestades, mantém-se estável.Alceu Valença lança ‘Todos os Cantos – Ao Vivo em Olinda, Recife e Montreux’, álbum em que reafirma seu compromisso com a música popular
ReproduçãoDivulgaçãoAlceu Valença reuniu sucessos, músicas quase desconhecidas e inéditas em disco ao vivo

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