Portuguesa mais carioca ou carioca mais portuguesa que o mundo já conheceu? Nenhuma das alternativas. Carmen era brasileiríssima. Tá certo, Maria do Carmo Miranda da Cunha, nasceu em 17 de dezembro de 1909, na província de Marco de Canavezes (Portugal). Mas chegou ao Rio de Janeiro com apenas dez meses de idade. Foi criada no coração da boemia da cidade. Folclore ou não, um fato ilustra perfeitamente o orgulho que Carmen tinha em ser brasileira. Certa vez, em Nova York, o almirante português Gago Coutinho foi visitá-la no camarim. Disse-lhe: ‘‘Minha filha, tu és cachopa de Portugal. Por que não cantas um fado ou um vira?’’. E Carmen, sem pestanejar, tascou: ‘‘Almirante, sou brasileira. Brasileira. Apenas nasci em Portugal’’. Pano rápido.
Cronologicamente, a carreira de Carmen Miranda começou na tal festinha no Instituto Nacional da Música. O primeiro disco, em 29, trazia duas composições de Josué de Barros - ‘‘Triste Jandaia’’, uma canção-toada; e ‘‘Dona Balbina’’, um samba. O estouro mesmo aconteceu com ‘‘Ta-H풒, de Joubert de Carvalho, a grande sensação do carnaval de 1930. Vendeu incríveis, para a época, 36 mil cópias.
Vieram os programas de rádio (foi César Ladeira quem a apelidou de ‘‘A Pequena Notável), a popularidade, sucessos atrás de sucessos. A glória. No final da década de 30 era a estrela máxima do Cassino da Urca. Foi lá, em maio de 39, que recebeu o convite do empresário norte-americano Lee Schubert para se apresentar nos EUA. Foi. Mas com a condição de que a acompanhasse o seu conjunto, o Bando da Lua.
Entram em cena, a partir de então, o talento e o destino. Nos EUA Carmen foi um sucesso pra lá de estrondoso - fez até com que a misteriosa Greta Garbo se desencastelasse para ir vê-la numa apresentação. Fez filmes e mais filmes. O retorno ao Brasil, em julho de 1940, foi para uma apresentação no Cassino da Urca, só para o creme de la creme da sociedade carioca. Entrou em cena com um ‘‘Good night, people!’’. Silêncio macabro e pouquíssimas palmas.
Em seguida cantou ‘‘South American Way’’. Poucas palmas. Na quarta música, ‘‘Touradas em Madrid’’, sentiu toda a frieza do público e saiu chorando do palco. ‘‘Acontece que a elite cariosa não suportava o fato de ela cantar, como diziam, música de preto do morro ainda mais vestida com roupa de negra da Bahia’’- analisa Iberê Magnani.
A resposta viria de músicas. A mais virulenta viria através de ‘‘Disseram que Eu Voltei Americanizada’’ (Vicente Paiva e Luiz Peixoto). Se a elite torcia o nariz, o povo brasileiro a amava. E amava com todo o fervor. E esse mesmo povo chorou loucamente quando veio a notícia de que Carmen havia morrido de parada cardíaca. Era dia 5 de agosto de 1955 (coincidentemente sete anos depois, na mesmo dia e mês, outro mito hollywwodiano, Marylin Monroe, também era encontrada morta). Desde então o mito passou a espalhar verdades e folclores mundo afora... (A.M.J.)

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