Desta vez o júri, presidido pelo ator Sean Penn, fez com louvor a lição de casa e acertou em todos os prêmios. Nada a lamentar. Por unanimidade, o francês ‘‘Entre les Murs’’ (‘‘Entre as Paredes’’, numa tradução mais aproximada), de Laurent Cantet, foi o grande vencedor, devolvendo à França pelas mãos de Robert De Niro uma Palma de Ouro que desde 1987, ano de ‘‘Sob o Sol de Sat㒒, não ficava com um compatriota. Mas o Brasil também ficou bem representado na festa. Sandra Corveloni levou o prêmio de melhor atriz pelo papel no filme ‘‘Linha de Passe’’.
  O prêmio de melhor atriz para Sandra foi uma surpresa bem recebida por todos. Ela interpreta uma mãe de quatro filhos de pais diferentes que formam a família que vive na periferia de São Paulo, no acurado retrato sociológico traçado pelos diretores Walter Salles e Daniela Thomas. Salles e Daniela receberam o prêmio por Sandra, que não veio a Cannes porque recentemente perdeu o filho pouco antes do parto. O outro brasileiro na competição, ‘‘Cegueira’’, de Fernando Meirelles, não foi premiado, como aliás se esperava.
Merecido
  Já ‘‘Entre les Murs’’ trata sobre um professor que ensina Francês para uma turma equivalente à nossa oitava série, numa escola da periferia parisiense. Um painel humano riquíssimo, um grupo de adolescentes difícil de lidar ‘‘entre as paredes’’ de uma sala de aula - o filme praticamente desconhece os exteriores. O professor, não um Robin Williams de ‘‘Sociedade dos Poetas Mortos’’, mas um homem simples confrontado com incertezas e contradições, alguém que não acredita em punição mas é obrigado a tomar atitudes para manter o equilíbrio e a ordem num cenário de complexa pluralidade. No momento da entrega da Palma, todos os adolescentes, nenhum deles ator profissional, foram celebrar no palco com o diretor Cantet.
  O Grand Prix foi para o italiano ‘‘Gomorra’’, de Matteo Garrone, um completo raio-x do funcionamento econômico, social e humano da Camorra napolitana. A Itália, que veio forte este ano, levou ainda o Prêmio do Júri com a ácida e muito inventiva sátira política ‘‘Il Divo’’, de Paolo Sorrentino, sobre um personagem emblemático da corrupção, o ex-primeiro ministro Giulio Andreotti.
  O júri, também por unanimidade, reconheceu o intenso trabalho que Benicio Del Toro desenvolveu para recriar em ‘‘Che’’ um dos personagens mais carismáticos do século passado. Foi o único prêmio da imensa produção dirigida por Steven Soderbergh, ainda com o destino incerto quanto à distribuição internacional.
  Um dos pontos altos da cerimônia de premiação, realizada no Grand Theatre Lumière, foi a revelação do Prêmio Especial do 61º Festival de Cannes, concedido ex-aequo a Catherine Deneuve por sua atuação em ‘‘Um Conto de Natal’’ e a Clint Eastwood pela direção em ‘‘A Troca’’. Clint não voltou para receber os aplausos, com certeza a mesma ovação dada a La Deneuve.

VENCEDORES


Os premiados no 61º Festival de Cannes:

Palma de Ouro: ‘‘Entre les murs’’ do francês Laurent Cantet

Grand Prix: ‘‘Gomorra’’ do italien Matteo Garrone

Prêmio do Júri: ‘‘Il Divo’’ do italiano Paolo Sorrentino

Melhor Atriz: a brasileira Sandra Corveloni (‘‘Linha de Passe’’)

Melhor Ator: o porto-riquenho Benicio del Toro (‘‘Che’’)

Melhor Diretor: o turco Nuri Bilge Ceylan (‘‘Three Monkeeys’’)

Melhor Roteiro: os belgas Jean-Pierre et Luc Dardenne (‘‘O silêncio de Lorna’’)

Palma de Ouro para Curta-metragem: ‘‘Megatron’’, do romeno Marian Crisan

Câmera de Ouro: ‘‘Hunger’’, do inglês Steve McQueen

Prêmio especial: a atriz francesa Catherine Deneuve e o ator e diretor norte-americano Clint Eastwood

Fonte: AFP


* O jornalista viajou a convite da organização do Festival de Cannes

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