A escritora carioca Ana Maria Machado viaja amanhã para a Colômbia onde receberá a mais importante premiação internacional para livros infanto-juvenis
Harry Potter não habita os livros de Ana Maria Machado, mas personagens tão ou mais fascinantes consagraram este ano a escritora carioca, que viaja amanhã para a Colômbia onde irá receber o cobiçado Prêmio Hans Christian Andersen.
A láurea, que equivale ao Nobel de Literatura para adultos, será entregue na próxima semana em Cartagena pelo Conselho Internacional de Livros Infantis. Ana Maria soube da premiação no final de março, quando estava na Itália participando da Feira de Livros de Bolonha.
De lá para cá, vem recebendo várias homenagens. Em maio, na Bienal Internacional do Livro de São Paulo, ouviu discurso do ministro da Cultura Franciso Weffort e recebeu uma placa do ministro da Educação Paulo Renato Souza. ‘‘Mas o momento da emoção foi substituído agora pelo momento da reflexão’’ – diz ela, por telefone, do Rio de Janeiro.
No texto que preparou para a solenidade do dia 21, ela vai enfatizar o valor da língua portuguesa e questionar a imagem exótica que os estrangeiros tem do Brasil. Para obter o prêmio, Ana Maria concorreu com 54 candidatos de vários países. O júri decidiu que cada um faria uma lista com seus dez escritores preferidos. A autora de ‘‘Bisa Bia, Bisa Biel’’ apareceu em todas, como primeira colocada em algumas e como segunda em outras.
O Prêmio é promovido a cada dois anos pelo IBBY (International Board on Books for Young People), um órgão internacional para desenvolvimento da literatura infanto-juvenil. Ela é a segunda brasileira a recebê-lo. Lygia Bojunga Nunes ganhou-o em 1982. Em toda a América Latina, só as duas foram premiadas. Quem indica os candidatos é o órgão federal de cada país e, tal como o Nobel, o júri leva em conta o conjunto da obra do escritor.
Ela já escreveu mais de 100 livros, 33 deles traduzidos para 17 idiomas. Quando não está concentrada em cima de uma nova história, está em algum lugar do Brasil ou do mundo dando palestras e ajudando a estimular o gosto pela leitura. É responsável – junto com Monteiro Lobato, Ruth Rocha, Sylvia Orthof e outros – por consolidar o gênero infantil no país formando um mercado atraente para as editoras.
Entre os lançamentos e relançamentos recentes da autora constam ‘‘Bisa Bia, Bisa Biel’’ (pela Salamandra) e ‘‘Era Uma Vez Três’’, ‘‘Ponto a Ponto’’ e ‘‘A Peleja’’ (pela Berlendis & Vertecchia). Ana Maria formou-se em Letras e começou sua vida profissional como professora. Antes, foi pintora, tendo estudado no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e no de Nova York. Participou de diversas exposições individuais e coletivas. Após se formar em Letras Neolatinas, estudou com o célebre teórico francês Roland Barthes, sob cuja orientação fez sua tese de pós-graduação na École Pratique de Hautes Études, em Paris – onde também lecionou na Sorbonne nos anos de 1970-71.
Deu aulas na Faculdade de Letras e na Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Como jornalista, trabalhou na revista Elle em Paris e na BBC de Londres, além de diversos jornais e revistas. Mas ficou conhecida mesmo como escritora. ‘‘Comecei a escrever por encomenda para a revista Recreio, da editora Abril’’ – conta ela.
A revista, reeditada recentemente, era uma publicação lúdico-pedagógica que nos anos 60 chegou a alcançar a marca de 250 mil exemplares vendidos por semana. Cada número trazia texto de um autor diferente. As histórias de Ana Maria Machado e de Ruth Rocha eram as que mais repercutiam entre os leitores mirins.
‘‘Fiquei anos escrevendo ali, até que comecei a exercitar textos maiores e guardá-los na gaveta. Um dia ganhei um concurso e uma editora se interessou em publicar o texto, junto mostrei outros três. Daí para a frente não parei mais’’. Os livros de Ana Maria Machado venderam mais de 6 milhões de exemplares e têm sido objeto de inúmeras teses universitárias, inclusive fora do País.
Antes de embarcar para a Colômbia, Ana Maria Machado concedeu uma entrevista por telefone à Folha 2.
Para a senhora, como tem sido essa temporada depois da divulgação da premiação?
Eu soube da premiação na última semana de março quando estava na feira de livro infantil de Bolonha, na Itália. De lá para cá tenho recebido várias homenagens, não só no Brasil como em toda a América do Sul. Mas já passou o momento da emoção, agora é o momento da reflexão. No discurso que preparei para a solenidade, vou enfatizar o valor da língua portuguesa. Para mim, o prêmio não é uma consagração individual mas uma consagração coletiva. E não é um ponto de chegada, mas um ponto de partida para questionar a idéia estereotipada de país exótico que sempre pesou sobre o Brasil. As visões sobre o país lá fora destacam o exotismo tropical, a mulher bonita e a injustiça social. É verdade que temos tudo isso. Mas temos também escritores.
A literatura infantil brasileira é muito diferente da que é produzida em outros países?
Uma de nossas características é o convívio do real com o maravilhoso, que é feito com muita naturalidade. Não precisamos de artifícios para passar para o universo mágico. Nisso, a obra de Monteiro Lobato é exemplar. É uma característica de nossa literatura infantil que em outros países da América Latina se manifesta na literatura para adultos com o realismo mágico. Outro ponto que nos diferencia da literatura européia ou norte-americana é o fato de tematizarmos qualquer assunto com leveza, sem bode, combinando humor e poesia.
As crianças lêem mais que os adultos no Brasil?
Isso é um fato apoiado em números. Numa pesquisa recente feita pela Fundação João Pinheiro de Minas Gerais para a Câmara Brasileira do Livro constatou-se que 70% de títulos publicados nos últimos seis anos são de livros didáticos, 14% de livros técnicos (de direito, medicina, engenharia, manuais de informática etc), 14% de livros infanto-juvenis e apenas 2% de literatura para adultos. Para criança, são sete vezes mais.
Há pesquisas também que colocam a criança como uma refém da televisão, diante da qual ela passaria horas intermináveis. A senhora leva em conta esse fato ao escrever para esse público...
Nunca escrevo pensando no público. A literatura é um trabalho com a língua. E não acho que a criança passe mais horas diante da TV do que os adultos. Não acho também que isso prejudique a leitura. Na minha época existia o quintal, mas nunca deixei de ler. Hoje em dia, as crianças têm a TV, mas têm também o computador, os amigos e cada vez mais a música. Mas não vejo problemas nisso, não demonizo a TV. Acho essa pergunta preconceituosa.
Qual é a fórmula para prender a leitura da garotada até a última página?
Se existisse fórmula, haveria um montão de escritores por aí. Minha fórmula é seguir a intuição e não pensar muito. Talvez a memória de minha infância aliada à capacidade de invenção e o domínio da língua expliquem um pouco minha obra.

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