Se o Festival de Cannes faz daqui a duas semanas justificada festa para comemorar os 60 anos, a Semana da Crítica também tem bons motivos para se orgulhar. São 46 edições, sempre voltadas à vanguarda cinematográfica, à ousadia, à experimentação, à abertura de janelas para novos cineastas. Ao longo das décadas, a Semana tornou-se mais e mais respeitada, especialmente pela descoberta de talentos como Bernardo Bertolucci, Kean Loach, Alejandro González IÀárritu, Wonga Kar-wai e François Ozon, entre outros.
Ontem, o delegado-geral da 46 Semana da Crítica, Jean-Christophe Berjon, anunciou a seleção deste ano, uma seleção com forte sotaque hispânico e tonalidade latino-americana, segundo ele ''um jovem cinema em plena ebulição''. O padrinho da mostra é o ator mexicano Gael Garcia Bernal, que também apresenta seu filme de estréia como diretor, ''Déficit''. Entre os filmes selecionados, três são brasileiros: o longa-metragem ''A Via Láctea'', da paulistana Lina Chamie, e os curtas ''Saliva'', de Esmir Filho, e ''Um Ramo'', de Juliana Rojas e Marco Dutra.
O Brasil, que não está entre os selecionados da principal mostra competitiva, a da Palma de Ouro, e nem na seção paralela ''Um Certo Olhar'', terá ainda duas presenças no Festival de Cannes: o esquete de Walter Salles para o filme-coral ''A Chacun Son Cinéma'', feito por 35 realizadores de vários países, e um curta-metragem incluído na mostra da Cinefondation, que seleciona e premia filmes de alunos de escolas de Cinema de todo o mundo - o brasileiro é do curso da Fundação Armando Álvares Penteado, de São Paulo.
O filme da brasileira Lina Chamie terá sua primeira exibição mundial em Cannes. É a história de um casal de namorados, Heitor e Julia, interpretados por Marco Rica e Alice Braga. Eles se desentendem por telefone, e Heitor resolve encontrar-se pessoalmente com Julia. No caminho até a casa dela, o rapaz vai observando a cidade, e a cidade passa a interferir em seus pensamentos. Através das ruas congestionadas de São Paulo, o filme propõe a discussão sobre perda, morte e as possibilidades do amor num grande centro urbano e em seu contexto social.
Este é o segundo longa-metragem de Lina Chamie, que estreou em 2001 com ôTonica Dominante" depois de assinar diversos curtas e escrever roteiros, como consequência natural de uma longa permanência em Nova York, onde estudou Cinema. ''É um filme muito singular, um fogo de artifício cinematográfico, que pode desconcertar o espectador mas também levá-lo ao entusiasmo'', afirmou Jean-Christophe Ferjon justificando a inclusão de ''A Via Láctea'' na mostra.
Outra importante seção paralela do Festival de Cannes, a Quinzena dos Realizadores, pode reservar nova surpresa ao cinema brasileiro. O anúncio da seleção será no próximo dia 3.

A Folha, como tem feito nos últimos dez anos, estará mais uma vez em Cannes cobrindo o Festival, a convite da organização da mostra

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