Entre a inércia e a ousadia, o cinema brasileiro vai sempre optar pela ação mais destemida diante de um mercado asfixiado pela produção estrangeira de baixa qualidade. Em lançamento nacional a partir de hoje, ‘‘A Partilha’’ entra na briga desigual enfrentando o fogo cruzado de ‘‘Pearl Harbor’’ e ‘‘O Retorno da Múmia’’. Embora ainda complicadas, as coisas já saíram da zona do desespero, e as chances de nossos filmes cumprirem boa carreira comercial vêm aumentando. No caso de ‘‘A Partilha’’, a situação é ainda mais confortável.
Produzido pela Globo Filmes, braço-cinema da Rede Globo de Televisão, o filme obviamente já vem há algum tempo se beneficiando de generoso processo mediático. E conta ainda com a parceria da Columbia, sempre conveniente para ambas as partes, capaz de abrir espaços no Brasil via de regra interditados a...brasileiros. Mas nem só por essas razões o filme deve cumprir boa temporada em expressivo circuito de salas no país (140 cópias, um número a festejar).
Dirigido pelo experiente veterano Daniel Filho e baseado em texto teatral de sucesso escrito por Miguel Falabella há cerca de 10 anos, ‘‘A Partilha’’ tem argumento, personagens e respectivos intérpretes capazes de estabelecer de imediato a necessária empatia com o público. Se não o chamado grande público, pelo menos aquele considerável segmento que há décadas garante o ibope da TV Globo na chamada faixa nobre – novelas, minisséries, especiais e humorísticos.
Selma (Gloria Pires), Regina (Andréa Beltrão), Laura (Paloma Duarte) e Lúcia (Lília Cabal) são quatro irmãs reunidas em torno de uma herança. A mãe morreu há pouco, e é preciso dividir os bens, entre eles o apartamento. Esta é a partilha real, prática. A outra, claro que metafórica, é a que faz o inventário subjetivo de emoções, lembranças, revelações, mágoas, recalques, relações, homens, mulheres, maridos, filhos. Humor e dor em doses brandas, a fórmula que equilibra esta receita em que aparece como componente essencial o quarteto de atrizes.

mockup