BRASIL SOFRE A PERDA DO BEM AMADO
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terça-feira, 07 de agosto de 2001
Francelino França<BR>De Londrina 
Rua Alagoinhas, 33, Salvador, Bahia. O endereço do escritor Jorge Amado (1912-2001), no Bairro Rio Vermelho, se transformou numa referência turística no Brasil e, certamente, com a morte do escritor baiano, anteontem, será local de peregrinação de turistas de todo o mundo. Às vésperas de completar 89 anos, Jorge Amado morreu vítima de uma parada cárdio-respiratória, no Hospital Aliança, na capital baiana, às 19h30. Populares manifestaram pesar ontem durante todo o dia durante o velório, no Palácio da Aclamação. Gente do povo que tanto inspirou o escritor em seus 23 romances, em quase 70 anos no ofício de escritor.
O corpo foi cremado às 17 horas, no cemitério Jardim da Saudade, em Salvador, e as cinzas do escritor devem repousar sob às sombras de uma mangueira plantada por ele, no jardim da casa da Rua Alagoinhas, na quinta-feira. O aconchegante solar sempre estava movimentado, com entra-e-sai e o telefone tilintando. Um microcosmo acolhedor, em que o casal Jorge e Zélia Gattai (também escritora) reunia souvenirs trazidos das andanças pelo mundo e recebia os amigos. O zunzunzum era tanto, que para escrever, ele precisava fugir daquele pequeno paraíso. Tieta do Agreste, por exemplo, foi escrita em Londres, enquanto que Navegação de Cabotagem, foi concebido em Paris e Estoril (Portugal).
Membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) há 40 anos, Amado que deu autonomia literária ao Brasil, vendeu mais de 20 milhões de livros, foi traduzido para 48 idiomas. Escreveu também biografias (ABC de Castro Alves e Cavaleiro da Esperança), uma peça de teatro (O Amor do Soldado); um livro de poesias (A Estrela do Mar); duas obras infantis (Gato Malhado e Andorinha Sinhá e A Bola e o Goleiro). No campo da memória, Jorge realizou dois livros (O Menino Grapiúna e Navegação de Cabotagem). Ainda estão inéditos Apostasia e Bóris, o Vermelho.
Somente Capitães da Areia, (1937) vendeu 4,3 milhões de exemplares. Em seu romance mais badalado, Gabriela, Cravo e Canela, traduzido para 15 idiomas, o autor baiano promoveu o entrelaçamento cultural e racial entre um árabe e uma mulata.
Jorge Amado inseriu a apimentada Bahia no mapa-mundi. O sensualismo que sai da cama para compor a imagem oficial da Bahia, muitas vezes retrata um primitivismo feliz. O Brazil ofertado por mercadores no exterior leva a imagem do Brasil amadiano. Escritores como Clarice Lispector e Guimarães Rosa chocam quando traduzidos no exterior, porque desmistificam a imagem brejeira do brasileiro.
O presidente Fernando Henrique Cardoso decretou luto oficial por três dias no País. Impossibilitado de comparecer ao velório, FHC foi representado pelo ministro da Cultura, Francisco Weffort. Em nota, o presidente Fernando Henrique afirmou que o a lição que nos deixa Jorge (Amado) é a de um combatente, de alguém que sempre esteve a favor da justiça, ao lado dos oprimidos, um criador que teve a coragem de pintar o Brasil em suas cores reais.
A morte de Jorge Amado repercutiu em todo o mundo. O presidente francês Jacques Chirac prestou homenagem ao escritor brasileiro expressando emoção e tristeza com a notícia de sua morte. O mundo das letras perde com a morte de Jorge Amado um escritor de grande talento e um homem comprometido. Para ele, a vida e os livros representavam a mesma luta, pela liberdade e dignidade de todos os homens, em particular dos humildes e oprimidos, cuja condição e sofrimentos ele compreendia desde a juventude, afirmou em nota Chirac. Uma mensagem de pêsames chegou ao presidente Fernando Henrique Cardoso, na qual Chirac afirmou que a França compartilha hoje a dor do Brasil.
O jornalThe New York Times conclama Jorge Amado como o Pelé da literatura. Em uma nação onde o futebol é o rei, Amado, que publicou seu primeiro romance aos 19 anos, foi chamado de Pelé da literatura. De acordo com o NY Times, o baiano bateu um recorde ao vender os direitos de publicação para tradução em 40 línguas diferentes e o cita a criatividade do escritor como uma referência na América Latina.


