O Brasil se casou na noite de anteontem, no Abril pro Rock que se realizou em Recife. A noiva se materializou na figura de uma senhora cinquentona, espontaneamente posuda, chamada Lia de Itamaracá, nativa de Pernambuco. O noivo, na de um rapaz de seus 30, artificialmente posudo, chamado Júpiter Maçã, nativo do Rio Grande do Sul. Graças às duas entidades, a sexta edição do festival pernambucano fez seu rito de passagem, marcado de beleza e tragédia - beleza porque o cenário se arma enfim para que o Abril pro Rock se torne festival de proporções nacionais e integradoras; tragédia porque nisso o mangue sai de cena, ofuscado pela ‘‘diversidade nacional’’.
No meio do caminho, estava o Rio - Pedro Luís e A Parede -, liderados por um jovem quase quarentão, disputaram com os noivos a honra de terem feito o show mais vibrante da jornada. Após mais um show de coco, agora por Zé Neguinho do Coco, entrou triunfante a noiva, vestida de amarelo rural, ladeada de cirandeiros e moças cantoras.
Após 20 anos escondida em Itamaracá - gravara um LP nos anos 70 -, a cirandeira veio dizer que não se pode mais chorar a ausência de Clementina de Jesus ou Capiba, Baracho, Nelson Ferreira... O Brasil adquire memória, graças a um festival de rock. Então entrou o noivo, freak, de gravatinha e camisa listada. Com rocks paródicos a Beatles, pós-Xuxa mesmo, efetivou o prodígio: ganhou o público pernambucano, brilhando em afetações do tipo ‘‘Pictures and Paintings’’. Após Tânia Cristal, entrou Pedro. Foi impecável: ‘Sossego’’ fez da banda a única a reverenciar Tim Maia, que fecharia o festival. A nota triste: Pedro propagandeou intensivamente os ‘bródis’’ Fernanda, Lenine, O Rappa, coisa que os mesmos repetiriam mais tarde. Tocar juntos, nem pensar.
Aí a bola foi baixando. Stonkas y Congas tentaram, mas capoeira catarinense não parecia fadada ao sucesso. Os paulistas do Hip Monsters não fizeram bonito. Serpente Negra e Capitão Severo, pernambucanos, provaram que mangue beat sem Science e Zero Quatro é coisa que não existe. O muito hippie Lenine entrou desconcentrado, o que os inúmeros problemas técnicos vieram a agravar. Mas se reafirmou artista de massa em Pernambuco. O Tiroteio paulistano pareceu versão crescida do Moleque de Rua.
O Rappa - que, diziam os organizadores, provocou com a ‘‘sista’’ Fernanda, colega de escritório, o atraso de duas horas e meia no início da noite - fez o fácil e o certo para agradar sem fazer força. Faltava Fernanda, que subiu ao palco às 5h. Não havia mais clima para seu agudo show, nem ela se dispôs a ousar matizando o repertório ‘brasileiro’’ com gotas doces como Speed Racer. Mas enlouqueceu nas baquetas da percussão para homenagear Science e não foi mau. Só não precisava submeter os sobreviventes a um ‘‘parabéns a voc꒒ com champanhe a um dos músicos - o Sol já havia nascido, e ninguém pediu bis. Era terminada a primeira edição do maior festival nacional pop (ainda) independente do Brasil.

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