Brasil na cabeça!
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quarta-feira, 23 de dezembro de 1998
Guto Barra Planet Pop/AE 
Não foi só a Copa do Mundo ou a movimentação do mercado financeiro que colocaram o Brasil no noticiário internacional. O ano de 1998 também foi marcado pela presença virtual da cultura brasileira no entretenimento norte-americano. Da participação de O Que É Isso, Companheiro? no Oscar às boas críticas de Central do Brasil, passando pela homenagem de nomes como os Beastie Boys e Beck à bossa-nova e à badalação do ator Bruno Campos no seriado Jesse, o ano iniciou um processo de mudança de imagem para o País que deve continuar nos próximos tempos.
O cinema foi um dos grandes beneficiados do hype em torno do Brasil. Mesmo não levando a estatueta de melhor filme estrangeiro na premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, O Que É Isso, Companheiro? reforçou o trabalho de Bruno Barreto no mercado norte-americano. Apesar de não ter empolgado nem o público nem a crítica com o thriller Entre o Dever e a Amizade (One Tough Cop, com estréia prevista para 5 de fevereiro no Brasil), o diretor vem tendo um papel importante na tarefa de atrair atenção para o cinema feito por ou com brasileiros.
Central do Brasil assume agora a missão de representar o País no Oscar e, de brinde, apresentou Fernanda Montenegro como a nossa Giulietta Massina (referência feita pelo New York Times). Walter Salles foi descoberto pela imprensa internacional, com a ajuda do prêmio do Festival do Filme de Berlim e da indicação ao Globo de Ouro (nas categorias de melhor filme estrangeiro e melhor atriz), e virou darling de revistas como a Vogue norte-americana. Em breve, além da possível indicação para o Oscar, ele deve voltar a ser assunto por conta de sua nova produção, Contagem Regressiva.
Paralelamente, o Museum of Modern Art de Nova York organizou a maior mostra de cinema brasileiro dos últimos anos, que vai até 22 de janeiro. Os quase 70 filmes selecionados para Cinema Novo and Beyond tiveram boa repercussão na imprensa da cidade, resultando em sessões com bom público. No lado mais independente, Iara Lee aproveitou o sucesso de seu Prazeres Sintéticos para dar credibilidade ao documentário Modulações, que dividiu a cena da electronica nova-iorquina, mas ganhou forte exposição. A cineasta parte agora para seu primeiro longa-metragem de ficção, uma adaptação de Dom Casmurro.
O cinema brasileiro também ajudou a impulsionar a carreira de Bruno Campos. Sua participação em O Quatrilho, filme de Fábio Barreto que concorreu ao Oscar em 1996, acabou ajudando em sua contratação pela rede NBC. Em poucos meses ele se tornou uma das maiores revelações da nova temporada por conta de sua atuação no seriado Jesse, estrelado por Christina Applegate (de Married With Children). Fazendo o papel do chileno Diego no seriado que tem ficado em quarto lugar no ranking dos mais assistidos nos Estados Unidos, Campos foi apontado como um dos 50 homens mais sexy do país, feito pela revista People.
Na música, o Brasil também conseguiu se firmar como uma das principais influências para bandas de estilos variados. Boa parte dos artistas entrevistados pela Planet Pop durante 1998 citou a música brasileira como forte inspiração. Da assumida homenagem de Beck em Tropicalia às faixas mais lentas de Hello, Nasty, o disco dos Beastie Boys produzido pelo brasileiro Mario Caldato, o espírito da bossa nova foi assunto constante. O pop internacional viu ainda o trabalho da Nação Zumbi sendo remixado por nomes como David Byrne e Mad Professor, o DJ Spooky fazendo parceria com Arto Lindsay, Bjork, fã confessa de Elis Regina e Milton Nascimento, incluindo beats de samba em um dos remixes de Alarm Call e até Madonna usando violões da bossa nova nas faixas mais lentas de Ray of Light.
Com tanta exposição, o Brasil virou sinônimo de sofisticação cool na imprensa descolada norte-americana e européia. Impulsionado também por movimentações isoladas, como o sucesso da modelo Giselle Bundchen nas revistas de moda, a abertura da loja Language em Nova York (que oferece roupas e peças selecionadas de decoração brasileiras), as discretas - mas elogiadas - entradas de Alexandre Herchcovitch e Tufi Duek no mercado internacional e o sucesso de profissionais como o fotógrafo Marcelo Krasilcic e o DJ Carlos Soul Slinger, o Brasil acabou nas páginas de revistas como Wallpaper, Dutch, I-D e Dazed and Confused
Para completar, ainda tivemos até envolvidos num escândalo sexual internacional. A imprensa da Inglaterra e dos Estados Unidos se deliciou com a suposta gravidez da modelo brasileira Luciana Gimenez, que teria sido o pivô da separação de Mick Jagger e Jerry Hall. Embora o episódio não exatamente ajude a melhorar a imagem do Brasil no jet-set internacional, teve uma certa pitada cult em um processo que pode ser o início de uma nova fase para o crescimento da cultura brasileira.


