São Paulo, 14 (AE) - Milionário e Zé Rico, Lucélia Santos e as mulatas do Sargentelli foram os únicos integrantes das primeiras missões culturais do Brasil enviadas à China, algumas décadas atrás. De olho num mercado cada vez mais promissor em tempos de globalização, representantes do Ministério da Cultura visitaram cidades chinesas, entre os dias 21 e 30 de maio, para fechar um pacote de intercâmbio cultural.
Dos acordos firmados devem sair uma mostra de cinema nacional em Pequim e programas de música brasileira na rádio e na TV chinesa. O ministro da Cultura, Francisco Weffort, mostra-se animado com os resultados da missão cultural à China e com as possibilidades futuras. "Acho que há um interesse real em difundir o Brasil lá", disse o ministro.
O governo brasileiro comemora 25 anos do reatamento de relações com a China, que em outubro comemora os 50 anos da sua revolução. Entre os artistas brasileiros que deverá receber estão Gilberto Gil, Paulo Moura e Wagner Tiso.
AE - Existe um interesse pragmático, além do diplomático
nas relações culturais com a China?
Francisco Weffort - Existe, claro. Interessa o mercado cultural da China e também todo o tipo de mercado que você possa imaginar. Já havia anteriormente sido firmado um acordo cultural
em 1988, mas é um acordo de intenções, tímido. A China é um país de 1,2 bilhão de habitantes, uma potência. Se 10% dessa população representar um mercado em potencial para o Brasil, será uma abertura importante.
AE - Que tipo de produto cultural brasileiro pode parecer interessante para ser oferecido aos chineses?
Weffort - Há alguns anos, alguém passou por lá um filme do Nelson Pereira dos Santos, "A Estrada da Vida". E a dupla caipira Milionário e José Rico fez várias turnês pela China, compraram muitos discos deles. Agora você pode perguntar: o que os chineses têm a ver com música caipira, sertaneja? Sei lá. E teve também o êxito da novela "A Escrava Isaura", que foi extraordinário.
AE - O sr. fechou um pacote de intercâmbio cultural?
Weffort - Fizemos vários acordos. Vamos enviar os CDs da Coleção Funarte/Itaú Cultural para difusão na rádio chinesa. Também vamos enviar músicos brasileiros para o Festival de Jazz de Pequim, em novembro. Eu pensei em nomes como Paulo Moura e Wagner Tiso, se eles tiverem algum espaço na agenda. O sistema de rádio e TV da China também se mostrou interessado em difundir documentários sobre o Brasil. Nós temos no MinC 31 vídeos sobre a cultura brasileira, acervos, manifestações folclóricas e de outras naturezas. Eles se propõem a fazer legendas para a divulgação. Também vamos realizar uma mostra de filmes brasileiros em Pequim e fazer intercâmbio de escritores e um seminário comparativo entre Brasil e China e suas situações de desenvolvimento.
AE - Da parte dos chineses, há um efetivo interesse?
Weffort - Fiquei muito impressionado com o interesse deles pelo Brasil. Sabem que é um país importante, emergindo na América, e eu creio mesmo que sabem mais sobre a nossa importância do que nós sobre a da China. Têm uma visão muito clara e objetiva. De qualquer modo, também me surpreendi ao ver que há uma abertura muito grande em relação à cultura internacional.
AE - Mas não há restrições políticas que impediriam o intercâmbio?
Weffort - Há mais restrições de natureza comportamental. Eles têm uma política severa, dura, para com filmes que descambam para o sexo. São muito diligentes em relação à família. Mas eu acho que seria muito interessante termos uma abertura cultura em relação à China, que não é uma referência no Brasil, mas que tem uma cultura milenar. São 5 mil anos de civilização, uma grande contribuição no campo das artes.
AE - Quais cidades a delegação brasileira visitou?
Weffort - Nós estivemos em Pequim e Shangai apenas. São cidades num processo de modernização acelerado. Pequim tem obras para todo lado, é impressionante. Shangai tem um padrão de modernidade comparável a Chicago. Cheia de superedifícios, grandes torres de TV. Visitamos um teatro moderno de cinco andares que custou US$ 110 milhões. Para você ter uma idéia, o Teatro Alfa Real, em São Paulo, um dos mais modernos construídos recentemente, custou US$ 16 milhões. A Biblioteca de Shangai tem 10 milhões de volumes e é toda informatizada. E a abertura para o capital estrangeiro é tão grande ou maior que a nossa. Há multinacionais por todo o lado: Epson, grandes bancos, grandes corporações.

mockup