Francisco Leme da Silva passa o ano todo reservando quarto de hotel para os outros. Quando chegam as férias, o presidente do Fórum das Agências de Viagens Especializadas em Contas Comerciais (Favecc) deixa para sua mulher organizar o passeio. Nesse verão, a família foi para Natal. Quando chegaram ao hotel reservado, foram informados de que estava lotado e seriam acomodados noutro hotel. ‘‘O estrangeiro que passa por isso não volta mais’’, diz o presidente da Favecc.
O Rio de Janeiro é uma cidade turística? Tente convencer disso três americanas que, na terça-feira de carnaval, olhavam, inconsoláveis, a vitrine de uma loja de roupas de banho na Visconde de Pirajá, em Ipanema. Biquínis do Rio são objeto do desejo mundial. No dia em que o Rio recebe mais turistas, o comércio está fechado.
Às 8 horas de quinta-feira, os argentinos Francisco Siolini e Alejandra Marero também passeavam diante das lojas fechadas do aeroporto de Natal. Elas começam a abrir entre 8 e 10 horas. Três vôos diários partem para o Sudeste antes das 7h. ‘‘Chegamos na segunda-feira de carnaval e as casas de câmbio estavam fechadas’’, lembra Alejandra. ‘‘Tivemos de trocar dinheiro numa loja em Pipa (ao sul de Natal).’’
Na recepção de um dos melhores e mais caros hotéis de Brasília, um americano pergunta em tom injuriado, em inglês: ‘‘Podem me dar uma toalha para a piscina?’’ A recepcionista responde com outra pergunta: ‘‘O senhor quer falar com alguém?’’, aparentemente confundindo ‘‘towel’’ com ‘‘talk’’. Outro hóspede fazendo o check-in traduz: ‘‘Ele quer uma toalha.’’ O americano vira-se para o intérprete improvisado e conta suas agruras: ‘‘Estou aqui há dez dias e eles nunca conseguem me trazer uma toalha na hora em que eu preciso.’’
O Brasil já não está de costas para o turismo, como no passado, mas ainda não sabe bem como portar-se diante dele. ‘‘A pergunta não é por que o Brasil recebe apenas 5 milhões de turistas, mas como consegue receber tudo isso’’, corrige uma especialista do mercado. Todos concordam que o País teria potencial para receber muito mais, mas as razões pelas quais isso não ocorre também parecem unânimes. ‘‘Infra-estrutura inadequada, mão-de-obra ruim e País perigoso’’, resume o diretor da Faculdade Senac de Turismo e Hotelaria, Luiz Gonzaga Godoi Trigo.
Os problemas de infra-estrutura começam pelo saneamento básico. A sujeira das praias e o mau cheiro dos rios espantam os turistas. ‘‘Não dá para tolerar isso’’, disse o inglês Stuart Kearsley, olhando para a sujeira de Porto de Galinhas, 55 quilômetros ao sul do Recife. ‘‘Fiz um passeio de buggy e notei que, mesmo nas áreas menos civilizadas, há sujeira’’, contou, em Natal, a portuguesa Sara Teixeira.
E há os problemas mais específicos. Na sua chegada inaugural, no ano passado, o festejado cruzeiro Splendour of the Seas quase não atraca: ‘‘Três dias antes, a área do Porto de Santos por onde ele entraria não tinha sido desassoreada’’, conta Trigo. ‘‘O Porto de Las Palmas de Maiorca tem finger para os passageiros desembarcarem do ferry boat a salvo da chuva’’, compara.
Treinamento da mão-de-obra, no Brasil, significa mais do que noutros lugares. ‘‘No Cabo de Santo Agostinho (novo resort 47 quilômetros ao sul do Recife), tivemos não de treinar, mas que educar o pessoal’’, lembra Jorge Nishimura, da Blue Tree. ‘‘Perguntavam por que era preciso pires sob a xícara: só conheciam copo de massa de tomate.’’
O desconhecimento do inglês também prejudica. O islandês Styrmir Kristjansson passou duas semanas em São Paulo e Florianópolis e se diz encantando. Não lhe falta boa vontade: achou o centro de São Paulo ‘‘bem conservado e limpo’’. Seu maior problema foi encontrar quem falasse inglês.

mockup