Brasil espanta os turistas
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domingo, 11 de março de 2001
Lourival Santanna Agência Estado 
Francisco Leme da Silva passa o ano todo reservando quarto de hotel para os outros. Quando chegam as férias, o presidente do Fórum das Agências de Viagens Especializadas em Contas Comerciais (Favecc) deixa para sua mulher organizar o passeio. Nesse verão, a família foi para Natal. Quando chegaram ao hotel reservado, foram informados de que estava lotado e seriam acomodados noutro hotel. O estrangeiro que passa por isso não volta mais, diz o presidente da Favecc.
O Rio de Janeiro é uma cidade turística? Tente convencer disso três americanas que, na terça-feira de carnaval, olhavam, inconsoláveis, a vitrine de uma loja de roupas de banho na Visconde de Pirajá, em Ipanema. Biquínis do Rio são objeto do desejo mundial. No dia em que o Rio recebe mais turistas, o comércio está fechado.
Às 8 horas de quinta-feira, os argentinos Francisco Siolini e Alejandra Marero também passeavam diante das lojas fechadas do aeroporto de Natal. Elas começam a abrir entre 8 e 10 horas. Três vôos diários partem para o Sudeste antes das 7h. Chegamos na segunda-feira de carnaval e as casas de câmbio estavam fechadas, lembra Alejandra. Tivemos de trocar dinheiro numa loja em Pipa (ao sul de Natal).
Na recepção de um dos melhores e mais caros hotéis de Brasília, um americano pergunta em tom injuriado, em inglês: Podem me dar uma toalha para a piscina? A recepcionista responde com outra pergunta: O senhor quer falar com alguém?, aparentemente confundindo towel com talk. Outro hóspede fazendo o check-in traduz: Ele quer uma toalha. O americano vira-se para o intérprete improvisado e conta suas agruras: Estou aqui há dez dias e eles nunca conseguem me trazer uma toalha na hora em que eu preciso.
O Brasil já não está de costas para o turismo, como no passado, mas ainda não sabe bem como portar-se diante dele. A pergunta não é por que o Brasil recebe apenas 5 milhões de turistas, mas como consegue receber tudo isso, corrige uma especialista do mercado. Todos concordam que o País teria potencial para receber muito mais, mas as razões pelas quais isso não ocorre também parecem unânimes. Infra-estrutura inadequada, mão-de-obra ruim e País perigoso, resume o diretor da Faculdade Senac de Turismo e Hotelaria, Luiz Gonzaga Godoi Trigo.
Os problemas de infra-estrutura começam pelo saneamento básico. A sujeira das praias e o mau cheiro dos rios espantam os turistas. Não dá para tolerar isso, disse o inglês Stuart Kearsley, olhando para a sujeira de Porto de Galinhas, 55 quilômetros ao sul do Recife. Fiz um passeio de buggy e notei que, mesmo nas áreas menos civilizadas, há sujeira, contou, em Natal, a portuguesa Sara Teixeira.
E há os problemas mais específicos. Na sua chegada inaugural, no ano passado, o festejado cruzeiro Splendour of the Seas quase não atraca: Três dias antes, a área do Porto de Santos por onde ele entraria não tinha sido desassoreada, conta Trigo. O Porto de Las Palmas de Maiorca tem finger para os passageiros desembarcarem do ferry boat a salvo da chuva, compara.
Treinamento da mão-de-obra, no Brasil, significa mais do que noutros lugares. No Cabo de Santo Agostinho (novo resort 47 quilômetros ao sul do Recife), tivemos não de treinar, mas que educar o pessoal, lembra Jorge Nishimura, da Blue Tree. Perguntavam por que era preciso pires sob a xícara: só conheciam copo de massa de tomate.
O desconhecimento do inglês também prejudica. O islandês Styrmir Kristjansson passou duas semanas em São Paulo e Florianópolis e se diz encantando. Não lhe falta boa vontade: achou o centro de São Paulo bem conservado e limpo. Seu maior problema foi encontrar quem falasse inglês.


