Dois nomes ilustres das artes plásticas estiveram em Londrina no final de semana durante a abertura da Coletiva do Milênio, na V Mostra de Decoração e Interiores. O pintor Aldemir Martins e o escultor Cleber Machado foram os convidados especiais da marchand Ana Maria Barreto, organizadora da exposição.
Considerado por muitos como o Jorge Amado das tintas e telas, Aldemir Martins diz que ‘‘Amado é muito, muito mais importante.’’ Mas isso é modéstia, já que o pintor cearense está a receber um prêmio dos mais importantes. No final de junho, Aldemir segue para Brasília, onde recebe o prêmio ‘‘20 Brasileiros do Milênio’’. Nas artes, além de Aldemir, receberá o prêmio ‘‘um tal de Oscar Niemeyer’’, diz o sempre irreverente Aldemir Martins.
Aliás, a irreverência é uma das marcas registradas do pintor cearense, nascido em 1922. ‘‘Sou do tempo em que ser artista era uma vergonha, os pais queriam esconder de todo mundo’’, lembra o pintor que hoje se diz uma ‘‘mulher da vida’’, sem pudores e que aceita os mais diferentes trabalhos. Isso porque suas obras, além de colorir paredes e painéis por todo o Brasil, agora também estampam desde copos da Nestlé a brinquedos da Grow e tapetes Tabacow.
‘‘Foi um escândalo quando minhas obras foram parar nas latas de sorvete da Kibon. Mas o fato é que foram vendidas 800 mil latas. E outro dia, um senhor no Pará me chamou para ver que em cima da geladeira dele tinha um trabalho de Aldemir Martins, a tal da lata.’’ ‘‘Não tenho vergonha. Vergonha é roubar e não poder carregar. Quero difundir a arte pelo Brasil,’’ explica.
‘‘Sou uma dona de casa da pintura’’, garante Martins, que pinta todos os dias durante seis horas e não se permite diminuir o ritmo. ‘‘Ainda produzo muito e tenho encomendas’’, enfatiza. Seus trabalhos mais recentes estão expostos na Casa Cor de Fortaleza e no Dragão do Mar, também na capital cearense. ‘‘Também tenho um CD-ROM com as minhas obras’’, lembra o pintor, que agora tem um escritório em São Paulo só para cuidar da sua imagem. ‘‘Quem imaginou que um dia eu fosse ter um escritório assim’’, brinca.
E nos planos para o futuro, Aldemir Martins conta ‘‘quero fazer obra de arte com os meninos de rua’’. E o trabalho já teve início com uma campanha em São Bernardo do Campo, onde o pintor desenvolve uma oficina de pintura com mais 500 meninos de rua.
Difundir a arte pelo Brasil, levar arte para as crianças estão entre os planos do pintor, que ainda se assusta com as diferenças culturais. Em uma visita ao Japão, Aldemir recebeu dinheiro de visitantes da sua exposição. ‘‘No Japão, me davam dinheiro só pelo fato de terem visto uma obra minha. Por aqui é ‘me dá um’’’, lembra o pintor cearense que diz só usar meias vermelhas ou laranjas. A mesma tonalidade forte que vai para suas telas, no retrato do Brasil, que ele tanto conhece e ama. ‘‘Não tenho vergonha de ser brasileiro e acabo pintando isso.’’
‘Talento você tem, ninguém dá’
Em dezembro do ano passado, o empresário argentino Eduardo Constantine (conhecido comprador de obras de arte) arrematou uma peça do escultor Cleber Machado. A peça em questão, um móbile da década de 60, estava em exposição na galeria de Ricardo Camargo. Cleber Machado não faz muita festa sobre o acontecido (afinal, Constantine é famoso por só comprar peças de artistas com renome internacional), só lembra que a peça-par do móbile foi comprada por Baby Jordão, de São Paulo.
Mais preocupado com futuro, Machado também esteve conversando sobre criatividade com alunos da Unopar, em sua passagem por Londrina. ‘‘Ninguém ensina arte e sim dá um direcionamento. Talento você tem, ninguém dᒒ, explica o escultor. Para Cleber Machado, Londrina tem toda a estrutura para se tornar um pólo cultural. ‘‘Só faltam coordenação e pessoas para tirar a inércia’’, enfatiza o escultor, que desenvolve um trabalho parecido com um grupo de artistas em São Paulo.
Além desse trabalho, o escultor está em meio a uma pesquisa de materiais, feita em parceria com uma fábrica de metais. ‘‘É a maior fábrica de metais da América Latina’’, explica Machado. ‘‘As indústrias deveriam participar mais do trabalho dos artistas’’, afirma o escultor. ‘‘Com esse metal flexível, vou poder executar certas coisas que até então não tinha como’’, anima-se.
Aldemir Martins e Cleber Machado só se chamam por ‘‘Colega’’. No encontro em Londrina, ficou claro a grande amizade entre os dois renomados artistas. Elogios mútuos e boas lembranças - inclusive quando tiveram que sair pela Londrina, à procura de uma gráfica para produzir cartões de visita para ambos, já que estavam sem.
E no meio do bate-papo-entrevista, eis que liga o pintor Claudio Tozzi para o celular de Machado. ‘‘Eu vi esse menino nascer’’, brinca Aldemir, que lembra que conhece Tozzi desde os 14 anos. ‘‘Ele é um talento emergente, um pintor jovem’’, define Machado. Para a reportagem da Folha2, Tozzi (que também está com um trabalho exposto na Coletiva do Milênio) contou que entre os novos projetos está o painel para o recém-inaugurado hotel Novotel, na capital paulista e outro trabalho para o Museu de Arte Moderna de Florianópolis.
Tanto Aldemir Martins quanto Cleber Machado já estiveram em Londrina outras tantas vezes. E gostam de enfatizar a importância do trabalho da marchand Ana Maria Barreto, que organizou a Coletiva do Milênio. ‘‘Os artistas brasileiros precisam de desbravadores como a Ana, para que as pessoas se informem’’, afirma o escultor. Já o pintor Aldemir Martins, que há 25 anos trabalha em parceria com a marchand, diz que a galeria londrinense é a única fora do eixo Rio-SP.
- Coletiva do Milênio - Av. Tiradentes, 501, em Londrina. Até o dia 11 de junho, de terça a domingo das 15 às 23 horas.

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