BRASIL E ARGENTINA MOSTRAM BOM CINEMA
O século em 73 minutos e a literatura de Cortázar abrem com estilo e originalidade a mostra competitiva de Gramado
ReproduçãoO longa de Marcelo Masagão Nós que Aqui Estamos... está em cartaz em circuito nacional e foi mostrado anteontem em GramadoO filme argentino Diário para Un Cuento, de Jana Bokova, é um sério concorrente do Brasil na mostra competitiva
Carlos Eduardo Lourenço Jorge
Especial de Gramado para a Folha 2
Prevista, anunciada e bem-vinda diante de um contexto de dificuldades, a presença do governador do Rio Grande de Sul, Olivio Dutra - aplaudido com parcimônia -, confirmou a importância artística e política do 27º Festival de Gramado - Cinema Brasileiro e Latino, que começou segunda-feira na serra gaúcha. Tudo previamente acertado entre comissão organizadora e o cerimonial do Palácio Piratini. Menos o atraso de exatos 30 minutos, que retardou o início das projeções e exigiu quota maior de sacrifício de uma platéia pequena, exausta e sonolenta depois de um dia de viagem dos quatro cantos do País e do exterior. Contratempo e irritação contornados pelas porções generosas de cinema de alta qualidade servidas como prato principal da noite.
Os curtas é que não estiveram lá muito bem na sessão de abertura. O destaque da categoria foi Amassa que elas Gostam, bem-humorada animação que utiliza técnica mista - bonecos de massa e personagens de carne e osso. É a história de uma secretária mal resolvida afetivamente e que acaba se apaixonando por alguém especialmente diferente: um homem feito de massinha, ator de filmes pornô, um cafajeste tipo só dou o que elas gostam. Bem-humorado, o curta do paulistano Fernando Coster explora com inteligência as muitas possibilidades deste sempre curioso e potencialmente criativo casamento entre dois mundos: o real, habitado por gente viva, e aquele outro, supra-real, das mais variadas técnicas de animação, sejam desenhos ou bonecos.
Os dois outros curtas da abertura não justificam presença numa mostra que frequentemente ofusca a categoria principal, a de longas-metragens. A Lua, do carioca Josias Pereira, apresenta uma exasperante fragilidade técnica e narrativa quando se propõe a dar um recado antiviolência. Um roteiro débil tenta trabalhar a idéia sempre plausível e estimulante de que a violência pode ser vencida pelo diálogo. Em duas situações abortadas pelo súbito entendimento entre as partes - uma tentativa de estupro e um assalto à mão armada -, a realização não esconde sua condição de objeto risível e quase ridículo. A anunciada precariedade de meios - apenas 4 mil reais e três latas de negativos vencidos, doadas - não justifica a constatada fragilidade dos fins.
Do Dia em que Macunaíma e Gilberto Freyre Visitaram o Terreiro de Tia Ciata Mudando o Rumo de Nossa História é menos ruim, mas ainda assim não justifica a anedota oferecida pelo título. Na verdade, é uma bobagem a título de licença histórica e poética. Em meio à tal visita, Macunaíma descobre o samba e canta Pelo Telefone, a obra-prima de Donga. Mario de Andrade e o sociólogo Freyre caem na folia do terreiro comandado por Zezé Motta. Produção bem cuidada, deixa a desagradável impressão de inútil dispêndio de recursos.
Lançado em circuito nacional no último final de semana, Nós que Aqui Estamos Por Vós Esperamos desafia qualquer tentativa de catalogação ou rotulagem.
Inicialmente concebido pelo diretor Marcelo Masagão como documentário, o filme-memória deste século que se apaga transcende o gênero e invade outras searas com despudorada originalidade. A partir de recortes biográficos reais e fictícios, Masagão fez o autêntico, legítimo corte epistemológico muito teorizado, muito dito e muito raramente visto e comprovado. Discretamente definido pelo diretor como um filme sobre a banalização da morte no século, vai mais além porque trabalha em chave interdisciplinar e intermídia com imagens de arquivo, efeitos de computação, foto estática, ficção, realidade, efeitos sonoros, música - muita e da melhor espécie, assinada por Wim Mertens - silêncios, muita sutileza, alguma obviedade, certa redundância. Brinca com gente séria, torce alguns fatos, distorce outros, vai levantando os principais referenciais que fizeram do século XX a Babel que todos conhecemos.
Num certo sentido, Nós que Aqui Estamos... é uma obra que consegue a façanha de atomizar a informação, e quem ganha é o espectador, vê correr na tela um painel animado e interpretado sobre erros e acertos da humanidade nos últimos cem anos. Masagão, que até o ano passado promovia em São Paulo o Festival do Minuto - parou por falta de patrocínio -, de tanto olhar aprendeu (1) que a síntese criativa trabalha a favor da informação e (2) que os velhos e bons teóricos-práticos do cinema russo sabiam bem o que diziam e faziam, Dziga Vertov com seu cinema-olho e os fundamentos do documentarismo, e Sergei Eisenstein que ajudou a derrubar um império com a montagem ideológica. Está tudo aqui, para deleite de cinéfilos de paladar mais exigente.
O longa brasileiro só não saiu folgadamente consagrado porque a Argentina, que ganhou Gramado ano passado, trouxe um respeitável concorrente, Diário para un Cuento, de Jana Bokova. Baseado livremente num conto curto de Julio Cortázar, do livro Deshoras, o filme da checa Bokova recupera um período recente da Argentina, anos 50, pouco antes e pouco depois da morte de Eva Perón. É a história de um jovem aspirante a escritor que ganha a vida na zona boêmia do cais escrevendo cartas que prostitutas enviam para seus namorados marinheiros de outras nacionalidades. O local onde todos se reúnem é o cabaré O Gato Negro. É lá que o jovem Cortázar - o filme tem muito de autobiográfico - vai viver suas paixões e encontrar inspiração para sua futura obra literária. Jana Bokova trabalha intensamente seus personagens, dá a eles força e verdade. O clima é de muita sensualidade, com excepcionais interpretações de um elenco embalado por um trilha musical impecável, assinada por Rodolfo Medeiros.





