Há muito tempo não se via uma sessão competitiva no Festival de Cannes tão latina como esta da 61 edição, que será oficialmente aberta daqui a uma semana com a exibição do brasileiro ''Cegueira'', novo filme de Fernando Meirelles depois do sucesso de público e crítica de ''O Jardineiro Fiel''. Só na disputa direta pela Palma de Ouro estão dois brasileiros e dois argentinos.
Nas sessões paralelas estão mais 17 latino-americanos selecionados, entre eles um terceiro longa do Brasil incluído na seleção da mostra Un Certain Regard: ''A Festa da Menina Morta'', estréia na direção do ator Matheus Nachtergaele.
Dois curtas nacionais foram escalados na sempre muito rigorosa Semana da Crítica: ''Areia'', de Caetano Gotardo, e ''A Espera'', de Fernanda Teixeira. E mais um na Quinzena dos Realizadores. E na competição da Cinéfondation, que seleciona filmes curtos realizados por alunos de escolas de cinema de todo o mundo, participa ''O Som e o Resto'', de André Lavaquial, da Escola de Cinema Darcy Ribeiro, no Rio.
Cinematografias mais fortes do continente, Brasil e Argentina devem dar o que falar na Croisette. O sempre confiável Walter Salles assina, com Daniela Thomas, o drama ''Linha de Passe''. Meirelles é a comissão de frente, com a adaptação do romance alegórico ''Ensaio sobre a Cegueira'', do Prêmio Nobel português, José Saramago. O cineasta, quando soube do convite para abrir a mostra, declarou que seu filme não é o mais adequado para a noite festiva de inauguração de um evento como Cannes.
Do lado de ''los vecinos'', a tropa de assalto à Riviera é mesmo de elite, com a jovem e irrequieta autora Lucrecia Martel responsável por ''La Mujer sin Cabeza'' e o talentoso Pablo Trapero defendendo ''Leonera''. No dia da entrevista coletiva que divulgou a programação, foram anunciados vinte concorrentes, entre eles a dupla portenha e o trabalho de Walter Salles.
Os dois principais jornais argentinos, Clarín e La Nación, comemoraram muito o placar favorável. Até que, uma semana mais tarde, a curadoria de Cannes divulgou a lista definitiva, não apenas incluindo Meirelles na competição, mas colocando o filme dele na noite de abertura do evento - só quem sabe como funcionam estes vulcões de vaidade temperados com cifrões pode avaliar a importância de abrir uma vitrine como Cannes, Veneza ou Berlim. Se ''Cegueira'' vai decepcionar ou não, aí já é uma outra história.
Apenas como curiosidade, e para checar como ficaram os ânimos de nossos confrades, visitei na Internet a primeira página do Clarín. E lá estava a manchete, no impresso e on-line, ao mesmo tempo sintomática e muito divertida: ''Saramago abre Cannes''. No tempo regulamentar o placar era deles, dois a um, mas na prorrogação deu empate técnico. E em consequência, a ironia.
Dar boas risadas desta habitual soberba não altera o fato: nunca escondi minha admiração pelo cinema argentino, que tem livre acesso à sala de cinema alternativo da cidade. Sob vários aspectos eles têm - sempre tiveram, para usar de franqueza que pode até custar olhares atravessados - um carinho muito especial por seus personagens, aliás não por coincidência argentinos. São melhores narradores de histórias do que nós, sabem escrever para cinema, e isto com certeza por contar com roteiristas intelectualmente melhor equipados. E quando se debruçam sobre problemas econômicos e/ou políticos do país que flagelam seus indivíduos, fazem isto com mais eficiência e portanto com melhores e mais claros resultados críticos do que nós.
Espera-se, portanto, inefáveis prazeres por conta dos nossos representantes e dos deles, e também um clima de confraternização. Walter Salles, elegante como sempre e de fato muito amigo dos rivais na competição, é inclusive produtor do filme de Pablo Trapero. E sempre confessa sua enorme admiração por Lucrecia Martel.
Ah, ia me esquecendo: fora de competição, nas Sessões de Meia-Noite, há um documentário muito promissor, assinado por um cineasta bósnio, fanático por futebol: ''Maradona by Kusturica''. Isto significa que, em caso de o júri chegar ao empate entre Meirelles e Lucrecia, por exemplo, não podemos esquecer que estará lá, ao vivo (ainda) e em cores (pálidas), ''la mano de Diós''. Isto desequilibra qualquer desempate.

A convite da organização, a FOLHA estará em Cannes para a cobertura do Festival

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