Na última sexta-feira (8), vidraças amanheceram estouradas e uma tinta rosa avermelhada, escorrendo como sangue, encobria a placa que identifica o prédio da embaixada brasileira em Berlim. Foi o segundo ataque à sede da missão diplomática do país na Alemanha desde que Jair Bolsonaro tomou posse, em janeiro.

'Marighella', primeiro filme de Wagner Moura na direção estreia no Festival de Berlim
'Marighella', primeiro filme de Wagner Moura na direção estreia no Festival de Berlim | Foto: Divulgação



É neste cenário que 12 filmes brasileiros serão recebidos com atenção especial ao estrearem, a partir desta quinta-feira (7), no Festival de Berlim, uma das principais mostras de cinema do calendário. Existe uma curiosidade internacional em torno de como esses títulos refletirão a onda conservadora no país.
A resposta com menos rodeios vem sob a forma de "Marighella", cinebiografia sobre o guerrilheiro esquerdista que marca a primeira investida do ator Wagner Moura na direção. A obra faz parte da seção principal do evento, mas não concorre ao Urso de Ouro.
"O filme é uma manifestação de claro enfrentamento a essa mediocridade", afirma o diretor estreante, que filmou a obra no começo do ano passado, quando a possibilidade de o candidato do PSL ser eleito "era uma loucura", segundo diz. "Mas já vivíamos um movimento conservador. Hoje somos uma piada internacional."

A trama, inspirada na biografia de mais de 700 páginas escrita pelo jornalista Mário Magalhães, acompanha os últimos anos da guerrilha urbana empreendida por Marighella. Moura, interditou ruas em pleno centro de São Paulo, descreve a linguagem da obra como um misto de drama de época e filme de ação. Quem assume o papel principal é Seu Jorge. A escolha do músico e ator, que é negro, para interpretar o guerrilheiro, que era filho de italiano e neto de escrava, já em si um manifesto.
"A gradação da cor da pele me interessava pouco", diz o diretor. "Não há como discutir qualquer questão social do Brasil sem falar da questão racial. Para mim, Marighella tinha que ser negro."
O diretor, que colheu relatos de ex-integrantes dos grupos de luta armada ALN e MR-8, diz estar ciente de que o filme pode gerar reações violentas. "Mas também vai ser abraçado por muita gente", crê.

"Divino Amor", do recifense Gabriel Mascaro, é outro que desembarca na capital alemã no rastro da politização. Logo que estreou, em Sundance, essa distopia sobre um Brasil neopentecostal foi encarada como referência direta ao governo Bolsonaro pelas revistas Variety e Hollywood Reporter.
"Quando escrevemos, nós não tínhamos a menor ideia do que aconteceria hoje", afirma Lucas Paraizo, um dos roteiristas do filme. "Pensamos na distopia, mas a distopia virou a realidade."
O longa acompanha a jornada de uma mulher religiosa (Dira Paes) que sonha engravidar, mas não viu seu desejo atendido pela providência divina. O ano é 2027, e o Carnaval deixou de ser a maior festa dessa sociedade agora casta - o que não impede que haja outras celebrações sensuais para os brasileiros do futuro.

As convulsões do Brasil de 2019 respingam em outros títulos da Berlinale. Há espaço para discutir o racismo ("O Ensaio"), a precariedade das relações de trabalho ("Estou me Guardando para Quando o Carnaval Chegar"), a questão agrária ("Chão") e gênero e sexualidade (o drama "Greta", com Marco Nanini, e o documentário "A Rosa Azul de Novalis").
Já "Espero a tua (Re)Volta" trata das ocupações de escolas públicas por adolescentes paulistas em 2015 - um entre os vários longas descritos no catálogo do festival com alguma menção à ascensão da direita no país.

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