Um dos momentos culturais mais disputados ano passado foi o seminário ‘‘Brasil 500 Anos - Experiência e Destino’’, produzido pela Funarte e realizado em Curitiba com os auspícios da Secretaria de Estado da Cultura. Entre 6 e 29 de abril haverá nova rodada, no Teatro da Federação Espírita do Paraná, sob o tema geral ‘‘A Outra Margem do Ocidente’’. Se no encontro anterior os palestristas abordavam a Europa à época dos descobrimentos, o assunto de ‘‘A Outra Margem’’ será o Brasil de 1.500.
O que eram as sociedades indígenas na sua organização social, cultural e política ocupará boa parte das exposições, mas o assunto não se esgota aí. O Ocidente entra nesta história, porque à medida que ele penetra no Novo Mundo joga luzes sobre seu outro lado, o lado ocidental. É um olhar reflexo. ‘‘O Ocidente descobre coisas na política, na cultura, nas artes que ele não conhecia’’, disse o filósofo Adauto Novaes, coordenador do projeto.
O catálogo do seminário traz um texto de Novaes, onde o professor atenta para a comemoração pura e simples dos 500 anos, que para ele é uma ‘‘forma hipócrita do esquecimento’’. A trajetória de cinco séculos não foi feita de sombra e água fresca. Cita Pierre Clastres: ‘‘Um continente inteiro estará livre de seus primeiros habitantes, e esse Mundo poderá logo, a justo título, proclamar-se Novo.’’
A propósito escreveu Montaigne: ‘‘Tantas cidades arrasadas, tantas nações exterminadas, tantos milhões de pessoas passadas no fio da espada e a mais rica e bela parte do mundo transtornada pela negociação de pérolas e da pimenta. Mecânicas vitórias.’’
Adauto Novaes explica que um dos pontos fundamentais do próximo ciclo de debates será o da questão do Estado: como ele sempre foi visto pelos Ocidentais - entidade posta como superior e anterior à sociedade, para regulá-la - e o seu total desconhecimento pelos indígenas. Estes tinham ‘‘outra forma de política muito mais elaborada que a nossa e que tende a desaparecer’’, comenta o professor.
Colocar este assunto no rol das discussões é reconhecer que existia uma forma de regulamentação e reorganização política. Ele afirma que a atualidade do encontro vai muito nesse sentido - as sociedades indígenas trazendo elementos para serem pensados hoje, como o poder e a relação entre dominantes e dominados.
Determinadas comunidades indígenas tinham como chefes, líderes que as proviam de alimentos, organizavam expedições de guerras - e iam à frente dos guerreiros - além de outras obrigações e deveres. O que faltava a esses chefes era poder, como conhecemos. Assim que ele perdia autoridade para resolução dos problemas, era abandonado, deixava de ser reconhecido como tal.
‘‘Isso nos leva a pensar na nossa organização, hoje. De repente você pensa: que coisa é essa do Estado nos chamar de quatro em quatro anos para escolher aqueles que vão nos oprimir? Caricaturando, é um pouco isso’’, compara o filósofo.
Adauto Novaes afirma que o Ocidente não seria o que ele é se não tivesse ocorrido o descobrimento. A influência indígena influiu no pensamento - especialmente em autores como Montaigne, Rosseau, Diderot, Voltaire, só para citar os grandes autores - na botânica, medicina e em todas as outras áreas.

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