Brás recebe arte em outubro
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segunda-feira, 10 de maio de 1999
Por Maria Hirszman 
São Paulo, 11 (AE) - O Brás será palco de uma série de intervenções artísticas em escala urbana a partir de outubro, quando terá início o "Brasmitte". Organizado pelo mesmo grupo que concebeu os eventos do Arte/Cidade, esse projeto pretende colocar em discussão a dilaceração do tecido urbano e social das grandes metrópoles. A cena principal certamente estará dominada pelas intervenções em grande escala realizadas especialmente para o evento por cerca de 30 artistas e arquitetos brasileiros e estrangeiros. Mas uma série de exposições e debates sobre a questão da reestruturação urbana e de projetos que estão sendo encaminhados em várias partes do mundo estarão ocorrendo paralelamente para dar suporte às intervenções no bairro paulistano.
A lista de participantes ainda não é a definitiva (devem ser convidados mais cinco representantes brasileiros), mas já conta com grandes estrelas. Na área internacional estão Rem Koolhaas; Daniel Liebeskind; Vito Acconci; Antoni Muntadas; Krysztof Wodiczko; Hermann Pitz; Hannes Forster; Dennis Adams; Joep van Lieshout; Avery Preesman; Wolfgang Winter e Berthold Hlbert; e Marcos Novak.
Os representantes nacionais são: Waltércio Caldas; Nelson Félix; Iole de Freitas; José Resende; Regina Silveira; Carmela Gross; ¶ngelo Venosa; Ana Maria Tavares; José Wagner Garcia; Carlos Vergara; Cassio Vasconcellos; Maurício Dias e Walter Riedweg; e Carlos Fajardo. A maioria deles visitou a cidade nos últimos meses para discutir suas linhas de trabalho e conhecer o local de suas intervenções. "A primeira coisa que fazemos é colocá-los num helicóptero para que tenham a dimensão da área de intervenção", conta o coordenador do projeto, Nelson Brissac.
Uma de suas preocupações foi escolher um grupo amplo de artistas e arquitetos, apresentando um painel diversificado de leituras sobre a questão. "Escolhi os artistas por dois critérios complementares: de um lado estão aqueles que têm experiência em lidar com espaços complexos, de outro aqueles que têm potencial para lidar com situações sociais difíceis, de comunidades sem lugar, de miséria urbana."
Um rápido olhar pela lista dos convidados já dá uma idéia da ambição e da diversidade do evento. Há aqueles que derivam da arquitetura, como Koolhaas, mas que está menos preocupado com a questão da edificação e sim em lidar com situações de enfrentamento, em descobrir como conciliar vias expressas de alta velocidade com zonas residenciais, por exemplo. O holandês chega na quinta (13) ao Brasil e realiza palestra no sábado (15), às 16 horas, no Sesc Belenzinho.
Ou as obras mais contundentes, que apresentam uma visão ácida sobre as desigualdades sociais, como as de Wodiczko, que projetou um carrinho especial, adequado às atividades dos homeless (com cama acoplada e tudo), e distribuiu alguns deles entre os moradores de rua de Nova York.
Entre os brasileiros, predominam os artistas mais vinculados à tradição construtiva, mas há aqueles que pretendem explorar temas mais políticos, como Venosa, que já decidiu trabalhar com moradores de rua. Todos os projetos serão concebidos especialmente para o "Brasmitte" e deverão ser entregues à organização do evento até o fim de junho.
Maturidade - Outra característica interessante da lista é que - ao contrário do Arte/Cidade, que abriu espaço para vários artistas jovens - a maioria dos participantes já tem uma sólida carreira. "O desafio é muito grande para colocar no fogo um artista que ainda não tenha repertório para lidar com uma questão como esta", explica Brissac.
A maioria dos escolhidos já trabalhou com grandes escalas, como Waltércio Caldas, que está desenvolvendo um projeto em homenagem a Tom Jobim que ocuparia toda a Lagoa Rodrigo de Freitas. Mesmo assim, os artistas brasileiros tiveram ao longo de suas carreiras menores oportunidades de realizar intervenções em dimensões tão gigantescas.
Já a tradição da land art é uma referência básica para os artistas americanos e algo com o qual os europeus adquiriram relativa familiaridade. "Eles criaram uma leitura espacial que é ainda muito forte hoje em dia, mesmo que a produção contemporânea lide com fatores mais complexos, como política, questões sociais, que não estavam muito no horizonte dos anos 60", conta o coordenador do projeto.
Segundo Brissac, o trabalho do Vito Acconci, por exemplo
é sintomático dessa fantástica evolução. "Ele veio da pop art e da vanguarda americana e evoluiu para questões complexas de organização arquitetônica, questionando o modo espacial de viver e a relação do homem com os espaços públicos."
"A linhagem minimalista também marca os nossos artistas
mas falta um ajuste de contas; confrontar os estrangeiros com os brasileiros acho que vai ser uma forma de estimular a questão e um debate interessante", avalia ele, lembrando que para a produção nacional será extremamente importante estabelecer esse diálogo.
Dilaceramento urbano - A escolha da região não foi aleatória. Espremida entre barreiras naturais como o Rio Tamanduateí e artificiais e como as Avenidas do Estado e Salim Farah Maluf, a área do antigo bairro do Brás (que hoje contempla também as subdivisões Belém, Mooca e Pari) sofreu um violento processo de desindustrialização nos anos 50 e hoje vive uma situação de grave abandono. A abertura das grandes vias de transporte (Radial Leste) contribuiu para fragmentar de vez a área, uma das mais tradicionais da cidade.
"São Paulo é como uma grande nebulosa, que se foi alastrando para os lados enquanto o miolo se foi degenerando", resumiu o curador do projeto, Nelson Brissac. Exatamente por "parecer uma barriga, cercada por cogumelos de riqueza", o Brás é considerado hoje uma das áreas mais atraentes para a expansão da cidade, pois possui ampla rede de infraestrutura e está muito próximo ao centro da cidade.
Para fazer uma espécie de contraponto à região paulistana foi escolhido o bairro alemão de Mitte, já que ambos têm em comum uma história de dilaceração urbana. Localizado no centro de Berlim, ele foi cortado pelo Muro, tornando-se uma área totalmente fragmentada e sem personalidade. Mas, ao contrário do Brás, Mitte foi alvo de uma impositiva política de restauração, considerada bastante desastrada por Brissac. "Em vez de propor um caminho inovador, eles resolveram restaurar a gride urbana e o padrão de construção que existia antes da Guerra", conta. A idéia inicial do projeto era realizar intervenções tanto em Berlim quanto em São Paulo. Mas por razões de ordem prática e financeira, o Mitte será apenas uma referência e estará representado em exposição no Sesc Belenzinho.
A mostra "Berlim como Poderia Ter Sido" não mostrará a nova cara limpa e organizada da capital reconstruída, mas sim uma oportunidade de ver de perto alguns dos projetos apresentados nos concursos internacionais lançados pelo governo alemão e que foram recusados por sua ousadia ou incoerência com o padrão conservador adotado.
"Procuraremos discutir sobre projetos de reestruturação urbana em várias partes do mundo, não só em Mitte, que é a referência fundamental, mas todos os trabalhos que lidam com a questão de grande escala, sobre áreas dessa natureza, desorganizadas, tensas, complexas, em situação de transformação abrupta, física e social", explica Brissac. Também está sendo organizada uma exposição multimídia sobre a zona leste de São Paulo enfocando aspectos urbanos, econômicos e sociais, cuja pesquisa está sendo coordenada por Raquel Rolnik. Há mais de três anos, os organizadores do ""Brasmitte"" vêm explorando palmo a palmo a região para identificar os locais mais adequados para abrigar as intervenções artísticas. Até o momento foram pré-selecionados 20 sítios adequados para abrigar intervenções que estimulem a discussão sobre a percepção da arte no espaço urbano - como os armazéns da Central do Brasil, o os Largos do Glicério e da Concórdia ou o Cine Piratininga - , mas apenas seis deles servirão de cenário.
A maioria delas ocupará a enorme área do Sesc Belenzinho
que ainda está parcialmente desocupada. "A área ainda está em estado bruto, dando enorme liberdade de ação", diz Brissac, comemorando essa "chance única de trabalhar nessa escala". Além de ter sido vital para a viabilização de um projeto tão ambicioso, a nova área do Sesc funciona como uma espécie de marca registrada do evento. "São espaços genéricos sem personalidade, indistintos, como o restante da área toda."


