Quem mais resta? Paul Newman? Kirk Douglas? Gregory Peck? Os ''divos'' e divas de uma era hollywoodiana de mitos duradouros estão cada vez mais escassos. Não apenas mitologia em carne e osso, é bom que se diga, mas atores de verdade, também de comprovada longevidade artística. Quem como Marlon Brando, aos 77 anos, pode cobrar (e receber) três milhões de dólares - 400 dólares por minuto - por apenas alguns dias de trabalho e quatro cenas? Esta controvertida glória perene, uma das poucas duradouras no cinema universal, está nas telas brasileiras com o ótimo ''Cartada Final''. E também a partir da próxima semana volta aos cinemas brasileiros na versão ampliada de ''Apocalypse Now''.
Contam que circulava nu da cintura para baixo nos sets de ''Cartada Final'', toda vez que o chamavam para filmar. Dizem que insultava e humilhava o diretor Frank Oz diante de todos, chamando-o de Miss Piggy nos anos 60, Oz dublava a simpática porquinha personagem de ''Sesame Street'', no Brasil ''Vila Sésamo'', famoso show televisivo de bonecos falantes. Afirmam que aderiu à ''Cartada Final'' somente se suas cenas fossem dirigidas por Robert De Niro, o outro motivo de sua adesão ao projeto. Na verdade o mito de Brando é tão grande que a exatidão dos fatos resulta o menos importante quando se faz referência ao monstro do ''método'' o estilo de atuar celebrizado através do Actor's Studio de Lee Strassberg a partir dos anos 50, que levou para o cinema as lições de interpretação teóricas e práticas do mestre teatral russo Konstantin Stanilavski as mais profundas experiências emocionais do próprio ator a serviço da composição do personagem.
Segundo relatos confiáveis, no primeiro dia de filmagem em Montreal o ator chegou ao set maquiado para interpretar o gay Max, um especialista em colocar no mercado jóias e obras de arte roubadas pelo amigo (De Niro). O diretor Frank Oz, que nunca tinha trabalhado com ele e fazia sua primeira incursão fora da comédia - ''A Pequena Loja dos Horrores'', ''Os Safados'', ''Nosso Querido Bob'', ''Como Agarrar um Marido'', ''Os Picaretas'' - pediu a Brando, logo na primeira tomada, que fizesse algo mais realista.
Fuck you, foi a resposta que colocou um ponto final no diálogo recém-inaugurado. A partir daí, De Niro assumiu Brando, enquanto Oz, sem ser visto, espiava tudo por um monitor e fornecia instruções a De Niro através do assistente de direção.
O ator, que dois anos antes de recusar o Oscar por ''O Poderoso Chefão'' (72) havia pedido à Academia que substituísse sua estatueta ganha por ''Sindicato de Ladrões'' (54) porque a tinham roubado, não apenas é um dos mais completos de sua geração como também um dos mais anticonvencionais. Para compor o Stanley Kowalski de ''Um Bonde Chamado Desejo'' (51) ficou semanas parado em Times Square observando como os homens passavam por ele e em seguida entravam numa loja pornô. Emblema do Actor's Studio, durante a filmagem da cena da morte de seu personagem em ''O Grande Motim'' (62) ele se recostou em uma cama de gelo para experimentar os mesmos tremores que teriam acometido sua mãe na hora da morte. Durante as cinco décadas de uma carreira com exatos 40 títulos, Marlon Brando gerou clones diversos, impôs - para o bem e infelizmente para o mal - a ''marlonbrandização'' e deu mostras suficientes de exibicionismo, histrionismo e histeria para que celebremos mais seus retornos esporádicos do que suas ausências prolongadas. Suas interpretações são exatamente isso - solos que em ocasiões muito especiais admitem no máximo um dueto, jamais um filme coral.
Gigantesco Brando, literal e figurativamente. Ao ator bastam as quatro cenas de ''Cartada Final'' para meter o público no bolso. Com sábia mescla de carisma, ofício e simpatia, reveste de encanto o personagem Max, o ''bon vivant'', singular mistura de marchand, colecionador e receptador - de resto, há quem afirme mesmo que a linha limítrofe entre as funções é invisível. Não é precisamente um modelo de virtudes, mas Brando o transforma em uma espécie de tio malicioso, quase terno. As cenas compartilhadas entre Brando e De Niro, que voltam a trabalhar juntos 27 anos depois de ''O Poderosos Chefão - Parte II'', oferecem diálogos que parecem tão informais que os rumores de que foram improvisados não devem ser de todo infundados.
E o que dizer do trágico, poético, brutal, sábio e legendário Coronel Kurtz de ''Apocalypse Now'', que o mesmo Francis Ford Coppola dirigiu em 79? Na versão ampliada em 52 minutos que o público brasileiro vai conhecer a partir da semana que vem, o personagem ganha ainda maior ressonância: faltava a sarcástica leitura da visão da imprensa americana sobre a guerra do Vietnã feita por Brando-Kurtz, diante de esfomeadas crianças cambojanas. Um assombro.

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