Se você decidiu comprar um só disco de uma banda de que nunca ouviu falar este ano, aposte em ‘‘Glee’’, o álbum de estréia do Bran Van 3000. A banda de Montreal é sucesso no Canadá e conquistou a crítica norte-americana depois de ser disputada por uma série de gravadoras. Com nove integrantes, o grupo faz música que é uma espécie de mistura de Beastie Boys, Beck e Stereolab.
O Bran Van 3000 foi criado por James Di Salvio, ex-diretor de videoclipes e DJ do bairro nova-iorquino do East Village que resolveu montar seu próprio projeto musical. Ele investiu os US$ 10 mil que ganhou para trabalhar em um clipe de Brandford Marsalis na compra de equipamentos musicais e reuniu amigos, conhecidos ou nem tanto para gravar suas músicas. Participaram das sessões ‘‘mais de 30 músicos’’, de acordo com ele, e o resultado é surpreendente.
A banda, que acabou ficando com nove integrantes (três cantoras bilíngues, dois DJs, um MC e um violoncelista, além de Di Salvio e o tecladista ‘‘Electronic’’ Pierre Bergen), mistura elementos de hip hop, rock, trilhas sonoras dos anos 80 e trip hop. ‘‘A coisa que mais gostava quando era DJ no East Village é que lá não existe tendência, podia tocar o que quisesse, na ordem que bem entendesse’’, diz Di Salvio. ‘‘E foi isso que tentamos fazer no disco.’’ Mais do que uma colagem de ritmos e efeitos sonoros, ‘‘Glee’’ é uma sofisticada combinação dos gostos de músicos vindos de várias vertentes do pop sem cair no clichê do experimentalismo chato que marca o trabalho de boa parte dos ‘‘projetos’’ musicais.
Assim como Beck, o Bran Van usa instrumentos antigos, amplificadores valvulados e sintetizadores ‘‘fora de moda’’ para compor sua salada musical. O primeiro single, ‘‘Drinking in L.A.’’, tem uma base recheada de guitarras misturadas com vibrafones e vocais distorcidos. Alguns trechos do disco funcionam como uma trilha sonora de filme, com as faixas se sobrepondo a vinhetas. A estrutura é quebrada com climas que não têm nada a ver um com o outro. Do universo dos Beastie Boys e do Luscious Jackson a banda buscou inspiração para faixas como ‘‘Problems’’, uma espécie de new wave eletrônica.
Há ainda lugar para influência de reggae, dub e punk rock no trabalho do Bran Van. ‘‘Montreal é uma cidade muito eclética’’, justifica Di Salvio. ‘‘Cresci ouvindo música inglesa e de cabaré francês, mas as pessoas pensam que tudo o que Montreal deu à música foi Leonard Cohen e aquela baixista do Hole.’’
Outro ponto interessante do trabalho do grupo é a dose certa de ironia nas letras, o que já rendeu elogios de revistas como a ‘‘Rolling Stone’’, a ‘‘Spin’’ e a ‘‘Detour’’, além de jornais como o ‘‘New York Times’’, o ‘‘L.A. Times’’ e o ‘‘Village Voice’’. Em ‘‘Problems’’, eles falam sobre a dificuldade de se fazer sucesso. ‘‘Só os ricos conseguem se dar bem, são eles que tem coragem porque se sentem bem’’, diz a letra. Outras são intencionamente simples, apenas para dar o clima da faixa.
Em ‘‘Old School’’, que brinca com os primórdios do hip hop, eles despejam vários clichês da era, sobre microfones, picapes e apresentações ao vivo. Já ‘‘Supermodel’’ conta a saga de uma garçonete que sonha em se tornar uma supermodelo. A letra mais polêmica é a da balada ‘‘Mama Don’t Smoke’’, que encerra o disco, cujo refrão diz: ‘‘Mamãe não fume tanta heroína, você não tem de se preocupar comigo, só fico drogada umas duas vezes por dia e isso me ajuda a espantar a tristeza.’’

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