São Paulo, 28 (AE) - Carlos Alberto Ferreira Braga, Braguinha desde sempre, porque pequenino, João de Barro para se esconder, a partir do momento em que resolveu tocar violão e fazer samba - naquela época, fazer samba era coisa de malandro, gente de pouco respeito, e ele não quis que a família soubesse que estava fazendo música -, completa amanhã (29) 93 anos. É uma das mais ilustres figuras da música brasileira, autor de "As Pastorinhas (com Noel Rosa), "Carinhoso" (com Pixinguinha), Balancê" (com Alberto Ribeiro). Nas duas primeiras, fez a letra. Na segunda, a música.
Para comemorar o aniversário de Braguinha, a TV Cultura reprisa na quinta-feira, às 23h30, o programa "Ensaio, gravado em fevereiro de 1973 com o compositor. Ensaio é um programa criado e dirigido por Fernando Faro e tem um formato único: a câmara focaliza, em close, o entrevistado. Não são ouvidas as perguntas, só as respostas. Quando a pergunta é feita, a câmera examina as expressões do entrevistado. O assunto é sempre música. As perguntas levam o entrevistado a falar sobre a obra - e a cantá-la.
Braguinha começa o programa cantando "As Pastorinhas ("A estrela Dalva/ No céu desponta/ E a Lua anda tonta/ Com tamanho explendor"), composta em 1938. Mas o início da carreira foi antes. Aprendeu violão (nunca tocou bem) com Henrique Brito, colega de escola. Formou, com Henrique, mais álvaro Miranda Ribeiro e Almirante, o conjunto "Flor do Tempo (nome em referência à casa de Eduardo Dale onde os meninos tocavam, ainda amadoristicamente). Profissionalizando-se, o grupo mudou o nome para "Bando dos Tangarás. E Braguinha virou João de Barro. A primeira composição, lembra no programa, era um lamento de amor, feito para uma coleguinha de colégio, "Vestidinho Encarnado ("Eu quero morrer nas dobras/ Do teu vestido encarnado"). O primeiro sucesso veio em 1932: Moreninha da Praia. Foi quando começou a reinar no carnaval. Segue lembrando: respondeu a Lamartine Babo, que havia cantado a beleza das morenas, com Linda Lourinha", que Sílvio Caldas gravou.
O programa flui sem cronologia precisa. Uma coisa puxa outra, vai-se à frente, volta-se no tempo: é um dos encantos do formato criado por Fernando Faro. Braguinha fala de "Primavera no Rio ("O Rio amanheceu cantando/ Toda a cidade amanheceu em flor"), que gravou alguns meses antes de André Filho ter lançado "Cidade Maravilhosa. Lembra o sucesso de Touradas de Madri, de 1938 - neste ano ele fez "Touradas, As Pastorinhas e Yes, Nós Temos Banana".
Uma curiosidade: havia inscrito "Touradas em Madri num festival de música carnavalesca, promovida pelo governo do Rio de Janeiro, então Capital Federal. Ganhou. Como em todo festival
houve reclamações. Perdedores argumentaram que o festival era de sambas e marchas, e que Touradas não era samba nem marcha, mas paso doble (que, afinal, é marcha). Era época da ditadura getulista. O famigerado Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) mandava em tudo. Mandou anular o concurso. Organizou-se outro. Braguinha ganhou de novo, com "As Pastorinhas".
A atriz Heloísa Helena pediu uma letra para certa canção de Pixinguinha - para a peça Jou Joux e Balangandãs. Braguinha escreveu os versos de Carinhoso" em 1937. Um dia, um baiano sestroso, aspirante ao estrelato, recém-chegado ao Rio de Janeiro, pediu um autógrafo ao seu João de Barro. Era Dorival Caymmi. Com Alberto Ribeiro, seu parcerio mais constante, compôs Copacabana ("... princezinha do mar..."), para um filme norte-americano, a pedido dos produtores. Dick Farney gravou essa e também a maravilhosa toada "A Saudade Mata a Gente ("Fiz meu rancho na beira do rio/ Meu amor foi comigo morar").
Jorge Goulart gravou Laura, um pré-samba-canção; Nuno Roland fez enorme sucesso com Fim de Semana em Paquetá". Músicas de meio de ano. O sucesso do carnaval seguia com títulos como "Chiquita Bacana, "A Mulata É a Tal", Tem Gato na Tuba", "Pirata da Perna de Pau, Pirulito.
Ele não conta, mas em 1940 assumiu a direção artística da gravadora Colúmbia (depois CBS, hoje Sony Music) e começou a dublar filmes da Disney. Tinha uma filha pequena. Passou a compor músicas infantis. É a parte da obra de que mais se orgulha: "Pela estrada a fora, eu vou bem sozinha, levar esses doces para a vovozinha"; "Quem quer casar com a senhora baratinha/ Que tem fita no cabelo e dinheiro na caixinha?"; "Nós somos os caçadores/ E nada nos amedronta": foram mais de 50 discos, 50 histórias difererentes, que fizeram a felicidade de gerações de crianças.
Fica, naturalmente, muita coisa fora do programa. Não haveria tempo para tudo. Ele não canta Anda Luzia (que Maria Bethânia gravou em seu primeiro disco), nem conta que adaptou Mulher Rendeira", nem canta A Canoa Virou, nem a "Canção da Cinderela ou Seu Libório ou Seu Onofre, Laranja da China, Capelinha de Melão, Dama das Camélias, Maria, Acorda Que É Dia".
Mas o que o Ensaio mostra é bastante para emocionar, enternecer e fazer com que se deseje ainda longa vida a esse grande amante e cantor das belezas da vida.

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