São Paulo, 28 (AE) - Nem "O Sexto Sentido" nem "A Bruxa de Blair". O filme mais assustador dos últimos anos foi "Seven - Os Sete Crimes Capitais", de David Fincher. Nenhuma fantasia de terror, mas uma viagem muito real ao mundo perturbador das mentes enfermas. O filme consolidou o prestígio do diretor, que já havia feito antes o terceiro "Alien", com Sigourney Weaver. Fincher dirigiu depois o astro Michael Douglas em "O Jogo". Não era um filme nota 10, mas confirmava o diretor como um dos mais inteligentes operando no cinemão comercial de Hollywood. Fincher tem idéias. Costuma ir além dos efeitos, o que não é muito frequente.
A técnica continua fascinante em "Clube da Luta", mas, desta vez, o filme decepciona. É o pior de Fincher. Sucintamente
pode-se defini-lo como um filhote fascistóide de "A Laranja Mecânica", discutindo temas como o mito da virilidade e o homoerotismo. Há aspectos técnicos e estéticos curiosos, algumas soluções de linguagem atraentes, mas a doença da sociedade americana foi melhor retratada pelo autor em seus outros filmes. O filme já começa em plena vertigem, com tomadas que parecem surgir diretamente dos mecanismos da mente do narrador, interpretado por Edward Norton. Uma selva de células e tecidos, uma viagem do interior para o exterior, que se completa com as gotas de suor na testa desse homem acuado, com uma pistola na boca.
O filme, a partir daí, viaja ao passado para, por meio de flash-back, reconstituir a estranha relação dos personagens de Norton e Brad Pitt. Há tomadas geniais e cenas muito bem editadas, porque Fincher é um cineasta habilidoso, que domina os recursos da linguagem. Essa linguagem é a dos computadores. Fincher é um diretor pós-Magic and Light, a empresa criada por George Lucas para desenvolver os efeitos especiais da série "Guerra nas Estrelas" (e que, depois, viraram o feijão-com-arroz de Hollywood). É contemporâneo, apenas um pouco anterior aos Wachowski Brothers de "Matrix".
Em "Matrix", os Wachowskis criaram um mundo de efeitos especiais que podia ser aceito porque, afinal de contas, o filme todo se desenvolve num espaço virtual (o que o espectador só descobre depois). Fincher joga com o real e o virtual. É o que faz a complexidade visual de "Clube da Luta". O filme retoma o visual podre de "Seven", abandonado pelo diretor em "O Jogo". Cenários e ambientes muitas vezes expressam uma decadência total - a casa em que Pitt mora, por exemplo. O visual dos atores não é muito melhor. Pitt exibe o figurino mais cafona de sua carreira, Helena Bonham-Carter é a contrafação das heroínas certinhas que interpretou para James Ivory.
A essa podridão visual superpõe-se uma técnica muitas vezes prodigiosa. É a marca de Fincher, forte para que se perceba a personalidade do diretor, insuficiente para fazer de "Clube da Luta" outra obra vitoriosa de sua carreira.

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