Bowie para quem quer dormir
Nelson Sato
De Londrina
Discos de David Bowie já foram mais empolgantes. Hours ... (Virgin), seu novo trabalho, serve quase como um soporífero para noites de insônia. Contém apenas dez faixas, mas é o suficiente para arrancar bocejos à beira do colchão.
Bowie assinou a produção em parceria com o guitarrista Reeves Gabrels. O CD foi difundido primeiro na Internet através de uma grande campanha de marketing. Suas músicas servirão de trilha sonora para o videogame Omikron: Nomad Soul, onde o cantor aparece como um personagem da história. O jogo está previsto para ser lançado em fevereiro.
Tamanha badalação, contudo, não esconde a anemia do repertório. O álbum é sofrível, arrastando-se entre baladas tão previsíveis quanto tributárias da melhor fase experimentada pelo artista, aquela que vai de 1970 a 1974 quando lançou álbuns antológicos como Hunky Dury, The Man Who Sold the World, Aladdin Sane e The Rise and Fall of Ziggy Stardust and The Spiders from Mars.
Chega a ser constrangedor comparar os trabalhos, mas é a própria gravadora do artista que estimula involutariamente esse tipo de avaliação ao relançar dezessete discos de sua carreira. O lote, que inclui outros títulos magistrais de sua trajetória caso de Low, Heroes e Lets Dance está chegando simultaneamente ao mercado internacional junto com o novo CD.
É nesse pacote, e não em sua última incursão no estúdio, que sua importância para a música pop se manifesta ofuscando concorrentes. Mas em Hours ..., Bowie passa longe da fama de antecipador de tendências que sempre o perseguiu. As faixas se sucedem sonolentas, com exceção da inspirada balada acústica Seven.
Bowie, aos 52 anos, parece apenas um autor de canções honestas, sem motivações para propor novas aventuras musicais. Há dois anos, ainda tentou abraçar a contemporaneidade incursionando pelo techno, jungle e drumnbass. Mas ali já era um sujeito comendo poeira atrás de uma onda. Talvez só o comodismo explique a convocação de uma banda tão frágil para acompanhá-lo e afundá-lo.
Boa parte das faixas naufraga por cortesia dos timbres e levadas burocráticas que saltam da bateria de Mike Gabrels. Reeves Gabrels, por sua vez, esforça-se para evocar riffs setentistas, mas soa a mero copiador de Mick Ronson, o guitarrista que tocou com Bowie na fase glitter. Para completar o desastre, uma faixa instrumental (Brilliant Adventure) tenta em vão resgatar o período experimentalista do final dos anos 70.
Hours ... desaponta. Reúne apenas vestígios de quem, um dia, já foi o mais inspirado compositor pop inglês.





