Novo Airão - Marilda Medeiros, de 35 anos, é a mãe dos botos da Amazônia. Vive com suas duas filhas Marisa, de 16, e Monique, de 14 numa casa flutuante sobre o Rio Negro. Fica bem na entrada de Novo Airão, cidade que exibe a faixa ''paraíso do ecoturismo''. Ali mesmo funciona o Restaurante Boto Cor-de-Rosa, a fonte de sustento da família.
Uma das paradas previstas no roteiro do cruzeiro amazônico é justamente ali. Quem quiser, pode alimentar os animais com postas de peixe fornecidas por Marilda. A maioria dos turistas fica encantada com a docilidade e a coloração dos botos.
Enquanto isso, Marilda conta suas histórias. ''O próprio povo daqui matava os botos por medo, raiva e ignorância'', explica ela. ''Dizem que eles engravidam as mulheres e acabam com o cardume'', relata. ''Mas a gente sabe que também matam porque aproveita-se tudo do boto: veja só, até os genitais são usados para fazer magia negra e os olhos viram amuleto da sorte.''
Há lugares, segundo ela, em que os botos já não existem mais. ''Isso causa um desequilíbrio desastroso'', comenta. Ela toca o projeto ''O Encanto Vem das Águas'', cujo objetivo é preservar os animais. ''Trabalhamos também em cima da lenda, mas de uma forma positiva'', explica. ''Para ter turismo, tem de ter atrativo. E, para ter atrativo, tem de ter preservação'', prega.
Segundo ela, o projeto já funciona há quase oito anos. ''Hoje, tenho 14 filhos: as duas meninas e 12 botos'', diz. ''Antigamente, se um boto ficasse enroscado na malhadeira (rede usada para pesca), morria ali mesmo. Agora, os pescadores rasgam a rede e deixam o bicho viver'', conta.
Seria tudo uma maravilha não fosse o fato de o restaurante de Marilda estar dentro da Estação Ecológica de Anavilhanas, onde a visitação é restringida e alimentar animais silvestres, proibido. ''Trata-se de uma unidade de conservação de proteção integral'', explica Eduardo Badialli, coordenador de pesquisas do Instituto de Pesquisas Ecológicas (Ipê), uma organização que, ao lado do Ibama, responde pelo plano de manejo local.
Segundo ele, numa Estação Ecológica a lei permite somente pesquisas científicas e visitação com base educativa. ''Ao pé da letra, o que Marilda faz é contra a lei'', afirma. ''Alimentar os botos acaba mexendo com todo o ciclo de vida dos animais'', analisa. ''Mas há de se levar em conta que estamos na Amazônia, onde as pessoas têm uma relação muito próxima com a natureza.''
Badialli comenta que está em curso um trabalho de conscientização ambiental com Marilda. ''Estamos analisando até que ponto a atividade desenvolvida por ela de fato tem sido positiva para os animais'', diz ele. ''Uma coisa é certa: as pessoas, em geral, ainda temem o boto e a proposta de Marilda ajuda a desmistificar o folclore em torno do animal.''
E o pesquisador ressalta que é igualmente proibido manter animais silvestres em cativeiro. ''Grande parte dos hotéis na região tem animais para divertir os turistas'', afirma. ''E, não sei como, mas quando baixa a fiscalização dão um jeito de escondê-los.'' Ê, Brasil... (F.V./AE)

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