Numa era em que a efemeridade e a intolerância têm caminhado de braços dados com a globalização, existe um espaço democrático onde pessoas com os mais diversos perfis ainda podem conviver harmonicamente. As dezenas de bancas de revista de Londrina, por exemplo, estão de portas abertas para leitores ávidos por informações sobre assuntos variados demostrando que existe vida e novidade fora da internet.

Apesar de terem sido retiradas do Calçadão de Londrina há seis anos, as bancas da cidade conseguiram reconquistar e até ampliar seu público. "Houve uma queda no movimento logo que mudamos de endereço. Mas logo as pessoas foram se habituando e quem costumava comprar revistas e jornais continua
mantendo esse hábito. Mesmo com a internet ainda há espaço para os veículos impressos", enfatiza José Tito, dono da Banca do Tito, que há 43 anos trabalha no ramo e, em 2010, transferiu para o edifício Centro Comercial a banca que mantinha na Concha Acústica.

A funcionária pública aposentada Francisca Ramos de Camargo conta que não consegue passar uma semana sem ir à banca. "Aqui a gente sempre acaba sabendo das novidades, coloca a conversa em dia e ainda se mantém bem informada. Toda sexta-feira venho comprar os lançamentos da semana. Tenho certeza de que a leitura é responsável pela minha lucidez aos 89 anos de idade", relata.
Além de jornais, revistas e gibis, as palavras cruzadas estão entre as publicações preferidas de dona Francisca. "Vou dormir muito cedo e costumo acordar ainda de madrugada. Aos invés de tomar remédio para continuar dormindo, prefiro levantar da cama e ler. Costumo manter um dicionário ao lado das palavras cruzadas que gosto de preencher e desta forma estou sempre aprendendo coisas novas", argumenta.

O representante comercial Ricardo Ferreira também costuma visitar as bancas da cidade com frequência. "Coleciono gibis de super-heróis da DC Comics há 10 anos, e sempre estou em busca de novidades nas bancas. Procuro saber dos lançamentos pela internet, mas não abro mão de comprar as versões impressas das histórias em quadrinhos. Comecei a ler gibis ainda na infância por influência dos meus pais e pretendo incentivar meus filhos a também terem esse hábito da leitura. Tenho cerca de 500 gibis em casa", revela.

De acordo com o comerciante Carlos Alberto de Souza Pinto, proprietário da Banca Rodeio, apesar de ter interesses diversos o público das bancas costuma ter a mesma faixa etária. "Vendemos publicações específicas para segmentos totalmente diversos, mas atendemos na maioria das vezes consumidores de meia idade. Prova disso é que a venda de gibis sofreu uma grande queda devido ao fato do público mais jovem optar por ler as histórias em quadrinhos pela internet", detalha.
No entanto, há casos de pessoas jovens que também que não abrem de ler histórias impressas. É nas páginas em papel que muitos curtem os personagens dos mangás, a HQ japonesa que também tem versões para televisão que, no Brasil, fizeram a cabeça de nove entre dez adolescentes a partir dos anos 90. Para se ter uma ideia, no Japão os mangás correspondem a 40% do que é impresso no país, uma indústria que se espalhou pelo mundo e transforma as bancas de revistas em locais frequentados também pelo público jovem que também frequenta endereços especializados no gênero. Assim como parte do público de meia idade não abre mão de comprar seus jornais e revistas em bancas, fazendo do hábito uma espécie de lazer aos domingos, uma parcela da juventude quer ver seus mangás em "carne e osso", ou melhor, em papel e letras impressas. É o caso do estudante de Ciências da Computação Felipe Ferrari, 19 anos que conta: "Leio mangá há uns cinco anos e gosto de comprar as revistas em bancas, mas como existem muitos títulos que não são lançados no Brasil, costumo ler algumas histórias em sites especializados que disponibilizam o conteúdo com legendas em português."
O fato é que as histórias em quadrinhos continuam a ter um público cativo que faz das bancas um espaço repaginado, além disso, elas mantém a aura de ser o melhor lugar para se acompanhar as manchetes dos jornais diários, atraindo públicos de todas as idades. Melhor que isso, só mesmo levando um exemplar para casa para ler tomando um cafezinho. As melhores coisas às vezes dependem de hábitos muito simples.

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