"Bossa Nova" tem influência de Jobim e Truffaut
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quarta-feira, 29 de março de 2000
Por Luiz Carlos Merten 
São Paulo, 30 (AE) - É um filme simpático, leve, divertido. E romântico. Falando sobre Bossa Nova, que estréia amanhã (31) em mais de 150 salas de todo o País, Bruno Barreto diz que, para ser exato, deveria ter colocado nos créditos: "Baseado na novela de Sérgio SantAnna, "Senhorita Simpson", e nas músicas "Inútil Paisagem" e "Vou te Contar." Barreto assume que o filme deve pouco, ou nada, ao original de SantAnna. Dele, guarda pouquíssima coisa.
O nome da personagem feminina, o fato de ela ser uma professora de inglês no Rio, o jogador de futebol (mas no livro ele é decadente). Barreto explica por que comprou os direitos: "Foi mais para me resguardar." Hoje em dia, há um controle tão rígido da questão dos direitos autorais que ele queria evitar qualquer tipo de constrangimento ou processo por essas "coincidências".
"Bossa Nova" nasceu da convicção do diretor de que, como diz a letra da música, "é impossível ser feliz sozinho" no Rio de Janeiro. Barreto só adquiriu os direitos do livro depois que Arnaldo Jabor desistiu deles. Há dez anos, Jabor já queria fazer "Senhorita Simpson" com Amy Irving (mulher de Barreto). O diretor de "Toda Nudez Será Castigada" também ia fazer um filme diferente do livro, mas queria explorar mais as diferenças culturais entre americanos e brasileiros. Barreto preferiu fazer uma história romântica, de amor. Captou isso nas entrelinhas do livro, que é "doce-amargo", como ele diz. Mas Barreto é um romântico que desconfia do romantismo, daí a dedicatória a François Truffaut.
Ele estava lançando "O Que É Isso, Companheiro?" e trabalhava no policial "Entre o Dever e a Amizade", quando começou a dar forma, com Leopoldo Serran, ao projeto de Bossa Nova. Os dois criaram uma sinopse com a história que Barreto queria contar, diferente da do livro. Mas divergiram quanto aos rumos que o filme deveria tomar. Aconselhado pelo diretor de TV Guel Arraes, Barreto contatou em São Paulo a dupla Alexandre Machado e Fernanda Young. Eles fizeram o roteiro. "Pedi-lhes que não lessem o livro e criassem em cima da sinopse."
Surgiu então o filme que Barreto define como produto do seu amor pelo Rio, por Tom (o compositor Antônio Carlos Jobim) e por François Truffaut. "Tenho dois livros de cabeceira: um é a biografia do Truffaut pelo Serge Toubiana e Antoine de Baecque, o outro é o livro do Todd McCarthy (crítico americano) sobre Howard Hawks." Quando Serran e ele trabalhavam em Nova York, viram duas vezes "Beijos Roubados". Barreto ama Truffaut. É o diretor que ele mais gostaria de ser. "Gosto até dos filmes ruins dele." Truffaut também era um romântico que desconfiava do romantismo.
Antoine Doinel - Em entrevista Amy Irving disse que havia compreendido melhor o marido, depois de "Bossa Nova". "A senhorita Simpson é o Bruno", ela disse, acrescentando que agora conseguia entender as dificuldades de Barreto como estrangeiro na América. Barreto tem outro approach. "O personagem do Pedro Cardoso sou eu, é o meu lado Truffaut, ele é o meu Antoine Doinel."
Termina encerrando o sentido do filme. Num filme sobre o amor em que todos se dão bem - os que trapaceiam, os que mentem -, o destino reservado ao mais puro encerra a moral do diretor. Ele sustenta que "Bossa Nova, como todos os seus filmes, é um conto moral. Não seria, com outro desfecho para o anti-herói de Pedro Cardoso. Assume que Cardoso é seu alter ego no cinema. "Se tivesse sido guerrilheiro, seria ele em Companheiro." Acrescenta que o filme saiu mais pessoal do que esperava. "Muita coisa do relacionamento de Antônio Fagundes com Amy são coisas minhas e dela."
Seu próximo filme, que vai ter produção de Lawrence Bender (de "Gênio Indomável"), será "Emma Wiltz". A autora do roteiro é a americana Marjorie Wellin. Ela viu "Ato de Amor", que Barreto rodou nos Estados Unidos. Interessada, foi ver também "O Que É Isso, Companheiro? Convencida de que Barreto era o diretor ideal para o seu roteiro, enviou-lhe o material. Ele diz que é um roteiro maravilhoso.
A história de uma mulher de 38 anos que passou os últimos tempos cuidando da mãe cancerosa. Ela se fechou para o mundo. Encontra um homem cheio de vida e de energia, de 75 anos. Barreto busca uma comparação para o filme. "Será o meu O Despertar de Rita", diz. Queria fazê-lo com Michael Caine, mas o vencedor do Oscar de coadjuvante deste ano já fez o filme de Lewis Gilbert, com Julie Walters. Barreto pensa agora em Paul Newman.
"Bossa Nova" foi exibido na cidade, na terça-feira à noite, para convidados. Na segunda, houve uma sessão parecida, no Rio. "A diferença foi da água para o vinho", resume o diretor. O público paulistano adorou. As pessoas riam, participavam. Barreto arrisca uma interpretação: "O público carioca é mais escrachado, gosta de chanchada; o paulista é mais sutil." Sabe que fez um filme superficial, mas credita essa escolha ao próprio fato de querer fazer um filme leve e divertido. Destaca, no entanto, que há o personagem de Cardoso e o pai dele, o alfaiate Juan, essencial na trama. Com esses personagens, Barreto busca uma certa densidade, palavra que prefere a profundidade. Serviço - Bossa Nova. Comédia romântica. Direção de Bruno Barreto. Com Amy Irving, Antônio Fagundes, Alexandre Borges, Drica Moraes, Débora Bloch. Duração: 97 minutos. 12 anos. Distribuição: Columbia TriStar


