Bossa de sempre
PUBLICAÇÃO
domingo, 02 de fevereiro de 2014
Geraldo Bessa<br>TV Press 
O público sabe muito bem o que esperar de uma nova novela de Manoel Carlos. Fiel ao seu passado e idiossincrasias, o autor de sucessos como "Por Amor", "Laços de Família" e "Mulheres Apaixonadas" retoma seu lugar cativo no horário das nove amanhã, com "Em Família". Mestre na arte de retratar o cotidiano de maneira naturalista e no tempo da delicadeza, o próprio Manoel Carlos assume, com orgulho, que utiliza "armas" já conhecidas para seu novo projeto.
"Só posso fazer o que eu já sei. Novos autores estão surgindo e as novelas estão mais rápidas, mas a minha vai continuar a ter uma velocidade de acontecimentos muito particular. Não é o andamento, mas sim a qualidade da história que atrai o público", ressalta o autor, que já deixa claro que boa parte das autorreferências afetivas são justificadas pelo fato deste trabalho marcar sua despedida dos folhetins de longa duração. "Sei que já falei isso antes. Mas agora é para valer", jura, entre risos.
Ambientada no glamour do Leblon, bairro da Zona Sul do Rio de Janeiro que funciona como mais um personagem do teledramaturgo, "Em Família" aglutina tramas e trunfos já testados em outras novelas, como a mulher madura que perde o grande amor para a filha, a vilã psicótica que faz de tudo para atrapalhar a vida da mocinha, a mãe que execra a filha por conta da forma física, casamentos desfeitos e mal-resolvidos e a presença midiática da personagem Helena.
A "última" Helena, inclusive, é uma homenagem de Manoel Carlos a Lilian Lemmertz, que viveu o papel em "Baila Comigo", de 1981. "O fato de a personagem ser escrita para mim muda tudo. É um trabalho carregado de sensibilidade e possibilidades. Afinal, a principal característica da personagem é ser uma heroína errante", analisa Lemmertz.
Para corroborar com a sensação de déjà-vu, além da trilha intimista e bossanovista a música de abertura é uma versão da cantora Ana Carolina para "Eu Sei Que Vou Te Amar", de Tom Jobim e Vinicius de Morais , a escalação feita pelo autor com o diretor de núcleo Jayme Monjardim é um apanhado geral e afetivo de vários atores que se destacaram em tramas de Manoel, casos de Natália do Vale, Giovanna Antonelli, Herson Capri, Viviane Pasmanter, Ângela Vieira, Bruna Marquezine e Helena Ranaldi, entre outros. "Fizemos nossas apostas também. Mas, para os personagens centrais, eu queria muito voltar a trabalhar com pessoas que vi crescer e se desenvolver na tevê, como a Bruna (Marquezine) e a Viviane (Pasmanter)", entrega o autor.
Com trama dividida em três fases, a história principal de "Em Família" é centrada no triângulo amoroso envolvendo os primos Helena e Laerte, de Gabriel Braga Nunes, e o melhor amigo da protagonista, Virgílio, de Humberto Martins. Para as duas primeiras fases que têm duração total de 10 capítulos , a equipe comandada por Monjardim e pelo diretor geral Leonardo Nogueira passou por lugares distintos como a Áustria e cidades interioranas do estado de Goiás. "Passamos um mês em Goiás e cerca de 15 dias na Áustria. Viajar é uma tática maravilhosa para integrar atores e equipe técnica. Ao todo, cerca de 160 profissionais foram envolvidos nas duas empreitadas", conta Monjardim.
Em seu quarto trabalho com Manoel Carlos o primeiro foi a minissérie "Maysa Quando Fala o Coração", de 2008 , Monjardim ressalta que, além das complexidades técnicas gerais, o texto requer muito cuidado com a direção de atores. Tudo por conta do tom naturalista da assinatura de Manoel. "Preciso captar o que o autor quer e como o ator tem de reagir para chegar o mais próximo disso. Depois de quatro trabalhos, as expectativas ficam mais afinadas, mas ainda continuo de olho", entrega o diretor.
De volta ao Projac Centro de Produção da Globo, localizado no Rio de Janeiro , a equipe se surpreendeu com o fiel retrato do Leblon concebido pelo cenógrafo Mário Monteiro em um espaço de cerca de 8 mil metros quadrados. "Manoel Carlos é do tipo que sabe bem o que quer na ambientação de suas novelas. Levamos cerca de quatro meses para se chegar ao resultado mais satisfatório", explica Monteiro.
O maior trabalho das equipes de figurino e caracterização, gerenciadas por Marília Carneiro e Luiz Ferreira, respectivamente, é manter o rigor sobre a unidade estética ao longo das fases da história. Em especial, com os atores que continuam na trama com a passagem do tempo. "Figurinos e maquiagem são ingredientes especiais para se contar essa história. Tudo precisa ser coerente. O trabalho da equipe foi para três novelas. Uma que se passa nos anos 1980, outra, nos anos 1990 e a contemporânea. Nosso conceito fica entre o luxo e o casual, bem ao gosto das tramas do autor", valoriza Carneiro.


