Bortolotto vai 'ninar dinossauros'
Dramaturgo antecipa projetos do ano, incluindo um filme e a encenação de peça de Plínio Marcos, e fala sobre perfil melancólico
PUBLICAÇÃO
sábado, 18 de maio de 2019
Dramaturgo antecipa projetos do ano, incluindo um filme e a encenação de peça de Plínio Marcos, e fala sobre perfil melancólico
Marian Trigueiros - Grupo Folha 

“Varado” há mais de um dia sem dormir, Mario Bortolotto, inicialmente, recusa o pedido de última hora da reportagem da FOLHA para conversar. Porém, mesmo a contragosto, logo muda de ideia e, em quinze minutos, já está posando para o fotógrafo, driblando o sono e mostrando não se intimidar com as lentes ou com a insistência da repórter. Não fosse a cabeleira quase toda branca, o visual é o mesmo de décadas atrás: trajes pretos e os inseparáveis coturnos, além dos óculos escuros que continuam a compor a “cara de mau” do ator, dramaturgo e compositor londrinense radicado em São Paulo, um dos fundadores do Grupo de Teatro Cemitério de Automóveis. Para quem não o conhece, a “brabeza” quase convence.
O motivo da passagem recente de Bortolotto na cidade foi a participação na última edição do Londrix – Festival Literário de Londrina, quando apresentou o lendário “Poesia in Concert”, ao lado do grupo original formado por Maurício Arruda Mendonça, Rodrigo Garcia Lopes e Silvio Demétrio, que fez muito sucesso entre os frequentadores do Bar Valentino na década de 1980. “Não era uma coisa digerível, mas o bar ficava lotado com uma rapaziada que ia lá para escutar a gente ler nossos textos, poesias e de alguns caras que a gente admirava. Não sei se a cidade, hoje, está receptiva a esse tipo de apresentação, porque o País, em geral, não está interessado em cultura”, conta, referindo-se a figurões como Allen Ginsberg, Jack Kerouac, Charles Bukowski, Paulo Leminski, Arthur Rimbaud, Ferlinguetti , Haroldo de Campos e Ezra Pound.
Agora, o nome da vez na cabeça de Bortolotto é Plínio Marcos e o texto "Barrela", a primeira peça teatral escrita pelo dramaturgo em 1958, baseada em fatos reais ocorridos numa cadeia, da cidade de Santos. “Eu sempre quis montar Plínio Marcos e a peça que mais gosto dele é esta. Os filhos dele liberaram os direitos autorais e chamei uns atores que acho que tem a ver com o universo: tudo velho, feio, escroto, esquisito igual a mim. Fizemos uma primeira leitura e vamos começar a ensaiar”, conta, rindo. No elenco, portanto, sete homens que darão vida ao submundo retratado na linguagem crua de Plínio que Bortolotto diz ser integralmente fiel. “Não vou macular a obra do Plínio com modernismo bobo, não.” A previsão de estreia é para julho, depois que encerrar “Fuck You, Baby”, que vai estrear na próxima semana, no qual assina o texto e direção.
No momento, Bortolotto circula com “Tudo Que Dói” por salas de teatro de São Paulo e “Efeito Urtigão”, ambos com textos e direção próprios. Entre lembranças da cidade e os trabalhos sequenciais no teatro, também antecipa o lançamento do quarto CD de sua banda de rock, “Saco de Ratos”, que já está no gatilho para o começo do segundo semestre. Ainda encontra energia para finalizar o filme “Música para Ninar Dinossauros”, que conta com seu texto e direção. O texto já foi adaptado aos palcos em 2010 e faz críticas às relações conjugais e uma apologia à solidão com muitas drogas, bebidas, música e melancolia. “É um projeto feito por amigos, de forma colaborativa e baixo orçamento, mas com uma qualidade incrível. Estamos terminando de equalizar o som”, garante.
PROCESSO DE CRIAÇÃO
De fora, a quantidade de projetos simultâneos surpreende, principalmente por serem gêneros diferentes. “Não tenho meta nenhuma em minha vida, eu vou encaixando os trabalhos que me interessam. E eu faço só o que me diverte. Por isso, não sou muito crítico de mim mesmo. E faço muita coisa: banda de rock, grupo de teatro, escrevo literatura, poesia, dirijo peças para outros grupos, organizo eventos. Se receber por isso, melhor ainda.” No entanto, garante não trabalhar por dinheiro: “Não vou ficar sofrendo meses num trabalho que não gosto, mesmo que paguem bem. O que eu fiz foi manter um padrão de vida baixo, com básico, para não precisar me sujeitar a fazer algo que eu não goste e vender minha alma.”
Por isso mesmo, diz não ficar sonhando com ideias que não conseguirá executar, sobretudo por questões orçamentárias. “Tem amigo meu com projetos de quinze, vinte anos que quer fazer daquele jeito exato. Mas, assim, não vai conseguir fazer nunca. Eu também sonho com uma série de projetos, com luz ideal, cenário ideal, mas vou fazendo do jeito que dá. Hoje, não tenho nada engavetado. Tenho algumas coisas começadas que vou terminar e já colocar na roda como romance, peças, músicas”, pontua.
Sobre a morte de Antunes Filho, que faleceu no começo deste mês, Bortolotto diz que teve uma história ambígua. “Por anos, acreditei que ele não gostava de mim, porque algumas pessoas disseram isso. Mas um dia ele foi assistir a uma peça minha e quando acabou foi ao camarim me cumprimentar. Disse que tinha adorado e, depois, sempre ia assistir a outras. Ficou meu amigo e sempre me encontrava me abraçava e fazia questão de dizer que gostava de mim.” Com a morte do diretor, o dramaturgo diz que o teatro fica mais pobre, pois precisa de pessoas genais e dedicadas como ele era. “O teatro brasileiro está cada vez mais preocupado não com o fazer teatral, mas o ser bem-sucedido no teatro. É um erro querer se dar bem numa arte como o teatro, uma arte que é para se experimentar, ousar, arriscar.”
MEMÓRIAS E CARA DE MAU
Se a cara de mau quase engana, bastam poucos minutos de conversa para que a carranca de Bortolotto fique mais suave instantaneamente. Esboçando um sorriso de canto de boca, não se contém sobre a relação nostálgica com a cidade: “Passei um período importante da minha vida em Londrina, que me proporcionou tudo o que esperava em termos boêmios e culturais. Na década de 1980, era uma das cidades mais interessantes. É inevitável: a história da cidade faz parte da minha história e das minhas memórias. É sempre prazeroso lembrar do que eu vivi em Londrina e dos amigos daqui”, conta ele, que foi embora para a capital paulista, definitivamente, em 1996, “quando ficou complicado encontrar espaço para o artista independente trabalhar e Londrina começou a encaretar”.
De lá em diante, tem se dedicado, segundo ele, a fazer o que fazia por aqui. “Estou tentando sempre me aperfeiçoar, mas nunca mudei muito. O que era aqui continuo lá, só mudou a coisa geográfica. Claro que com a idade a gente passa a fazer melhor o que vinha fazendo antes.” Porém, a disciplina, ou a falta dela, para ele, é um problema. “Minha cabeça não para. Isso traz angústia, mas estou acostumado a viver assim, então não me perturba e também não me lamento. Mas meu grande problema é que eu me distraio muito e sempre deixo para fazer as coisas de última hora. Seria melhor poder dar uma revisada num texto, ler de novo, porque daria tempo de me arrepender de alguma coisa. Isso acontece na vida também, vou adiando as coisas e aí já era, perdi, a mulher já está com outro. Demorei, né?”, compara, debochando de si mesmo.


