Depois de um hiato de cinco anos, o dramaturgo e ator londrinense Mário Bortolotto finalmente volta a se apresentar no Festival Internacional de Londrina (Filo), desta vez com "Mulheres", do grupo Cemitério de Automóveis (São Paulo). Um dos primeiros espetáculos da programação do Filo 2013 a se esgotar, a montagem será apresentada sexta e sábado, às 21 horas, na Usina Cultural. A última vez que Bortolotto trouxe uma peça ao festival foi em 2008, quando participou do Filo com a peça "Chapa Quente", baseada nos quadrinhos de André Kitagawa, em apresentação única no Teatro Ouro Verde.
E agora nada menos do que o escritor americano Charles Bukowski (1920-1994) é tema da sua mais nova montagem, baseada no livro homônimo de Bukowski (o autor preferido do dramaturgo), que ganhou tradução competente de Reinaldo Moraes, em 1984, e tem direção de Fernanda D’Umbra.
Com seu estilo peculiar, marcado pela linguagem direta e marginal, ele afirma que aos 50 anos sente que consegue "perceber as coisas" com mais profundidade, fruto inevitável da maturidade.
Muito à vontade no universo beat, e com uma habilidade incomum de misturar romance e poesia, blues e jazz, cinema e quadrinhos, tornando-se uma das maiores revelações da nova dramaturgia brasileira, Bortolotto em "Mulheres" dá vida ao personagem Henry Chinaski (alter ego de Bukowski). Depois de um longo período sem nenhum tipo de relacionamento sexual, Chinaski chega à meia-idade reconhecido como escritor e vê com o sucesso inesperado a presença constante de mulheres em sua vida.
Do afã inicial, ele depois se depara com a solidão e o sentimento de perda que os relacionamentos superficiais normalmente reservam. "É um tipo de crise por que muita gente já passou, é muito comum e o que nos move muitas vezes a casar, a descasar e a querer casar de novo...", reflete o autor, lembrando que o próprio Bukowski contou com a ajuda essencial da esposa nos seus últimos dez anos de vida. "Aliás, acho que ele só viveu mais esse tempo por causa dela, dos cuidados dela diante dos problemas que ele enfrentou em decorrência da bebida", acrescenta.
Com nove livros publicados e três indicações e uma conquista do Prêmio Shell, Bortolotto defende o teatro como a única forma de arte de real resistência, "em que se é possível falar o que se pensa de uma forma direta e sem muita estrutura". "Infelizmente as peças têm ficado mais superficiais e cada vez é mais raro as pessoas se reunirem para discutir uma peça depois de assisti-la. Aliás, até as duração das peças está mais curta. ‘Mulheres’ tem duração de duas horas porque foi impossível enxugar mais o texto, mas normalmente as minhas montagens não ultrapassam uma hora e meia."
Mário Bortolotto escreve textos para teatro desde 1981. Fundou em 1982 seu próprio grupo, o Chiclete com Banana, atual Cemitério de Automóveis, com o qual montou cerca de cinquenta textos próprios e ganhou prêmios como autor, diretor, ator, sonoplasta e iluminador.
Além dos textos para teatro, escreveu o roteiro do filme "Meu mundo em perigo" (2007), do cineasta José Eduardo Belmonte, e escreveu dois textos a partir das fotos de Sebastião Salgado que foram encenados durante a exposição Êxodos, no SESC Pompéia, em São Paulo. Dirigiu, também, o tele-teatro "Billy, a Garota" para a TV Cultura.
E para aqueles que cogitam se alguma coisa mudou após a tentativa de assalto que sofreu em 2009, em que três tiros quase lhe tiraram a vida, ele logo avisa: "Essa é uma pergunta ainda recorrente e sempre falo que continuo o mesmo, continuo bebendo, escrevendo do mesmo jeito e não vou me converter a nenhuma religião. A única coisa que mudou é que fico um pouco ofegante quando tenho que subir uma ladeira", segue em frente, com bom humor, o velho e bom Mário.
Bate-papo e show
Dentro da programação da Quarta edição do Sesi Zoom Cultural acontece hoje, às 19h30, um bate-papo literário com os escritores Mário Bortolotto e Samantha Abreu, com mediação do jornalista Mário Fragoso. O evento, que acontece na Vila Cultural Cemitério de Automóveis (R. João Pessoa, 103-A) ainda terá pocket show com Bortolotto e Fábio Brum. A entrada é franca.

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