A escritora Karen Debértolis está lançando o CD ''A mulher das palavras''. Mas não é de canções de sua autoria, embora haja música nas dez faixas do disco. Muito menos de poesia musicada. E está bem longe de ser um recital com fundo musical. Os textos, dois do seu livro Calidoscópio (1995) e o restante publicado na internet, também não são apenas poesia, ou só prosa poética.
A escritora Karen Debértolis está lançando um CD-livro de literatura-música, em que a voz que lê-entoa-interpreta os textos tem a mesma importância que a guitarra, o baixo acústico, a bateria, a percussão e o violão. E todos contribuem para fazer do texto (e da música) uma outra linguagem, enfatizando o lado musical do contexto formado pelas palavras e explorando a expressão quase verbal da música. ''Essa quebra de barreira entre gêneros e linguagens traduz o que é a arte contemporânea'', observa.
Para tanto, a colaboração dos músicos foi fundamental. Primeiramente de Bruno Morais, que ajudou a selecionar os textos e fez uma primeira interpretação dos estilos musicais a partir das emoções e significados de cada um. Depois, com a banda, as melodias foram sendo moldadas a partir da ótica - individual e conjunta - de todo o grupo, e sem a intervenção de Karen. ''É um trabalho muito coletivo, em que o envolvimento dos músicos é peça fundamental'', enfatiza. Daí veio o processo de amadurecimento dessas criações, que foram ganhando ''massa muscular'', e a mixagem e masterização feita por Julio Anizelli.
Foi assim que Calidoscópio, por exemplo (embora já tivesse ganhado uma versão musical no ano 2000 em ''12 - Antologia de Poetas Londrinenses''), mostrou-se acertadamente um jazz. Além disso, essas várias leituras contribuíram para que cada faixa tivesse um humor diferente (algumas mais leves, outras mais corrosivas, ou tensas, ou dramáticas), sem desrespeitar a densidade das palavras dessa mulher - ou dessas mulheres, já que é no universo feminino (embora a escritora não goste dessa expressão por soar muito restritiva), com suas inquietações e intensidades, que se situa boa parte da arte de Karen.
Esta não é a primeira vez em que a escritora se dedica ao diálogo com outras manifestações artísticas. Em 2006, ela lançou, em parceria com a artista plástica Fernanda Magalhães, o livro ''Estalagem das Almas'', em que os textos e as fotografias eram complementares. Vencedora do prêmio Revelações do jornal Nicolau em 1994 e verbete no Dicionário Crítico de Escritoras Brasileiras (Escrituras, 2002), Karen também é autora de ''Guardados'' (2003), e já fez parcerias com a antológica banda Chaminé Batom.
Mas esta foi a primeira vez em que ela precisou encarar de frente a própria voz. Karen então foi fazer preparação vocal com a professora Meire Valin. ''Eu não conhecia a minha voz. Foi uma descoberta'', reconhece. Foi assim que Karen conseguiu uma voz que não lê, nem recita, nem interpreta, muito menos canta. É como se executasse a partitura das palavras.
Todavia, não é arriscado ao escritor emprestar a própria voz na leitura de um texto, já que isso pode soar como definitivo? ''Pode ser, mas não impede que as pessoas façam outras leituras. Está definitivo só no sentido de acabado, trabalho cumprido. Daqui pra frente, pode virar outra coisa'', sugere. E como pode. Estalagem das Almas não virou peça de teatro na Bélgica?
Por enquanto, o disco foi revertido apenas em show. Acompanhada pelos músicos Filipe Barthem, Mizão, Rafael Fuca, Leonardo Cacione e Julio Anizelli, Karen lança ''A Mulher das Palavras'' nesta sexta-feira, às 20h, na Divisão de Artes Plásticas da Casa de Cultura da UEL. Na ocasião, o disco estará à venda por R$ 10. O projeto, que envolve ainda palestras e a gravação de um videoclipe, tem patrocínio do Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic).
Ao apresentar os textos, Karen tem a possibilidade de ampliar seu público, envolvendo também o ouvinte além do leitor. Já estes podem ver essa mulher das palavras e sua banda ''borrar as fronteiras'' (como bem definiu a escritora) da música e da poesia. Quem não for, pode ouvir algumas faixas do CD no http://www.myspace.com/karendebertolis.

Serviço
Quando - Sexta-feira, 20h
Onde - Divisão de Artes Plásticas (Av. JK, 1973)
Quanto - Entrada livre. Os CDs serão vendidos a R$ 10.

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