Boris Fausto lança "Fazer a América", ensaios sobre a imigração na AL
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quinta-feira, 25 de março de 1999
Por Renata Saraiva 
São Paulo, 26 (AE) - Foi por uma "deficiência" em sua formação, como ele mesmo brinca, que o historiador Boris Fausto se transformou em um intelectual que atua em várias frentes, de colunista de jornal a escritor de memórias e organizador de ensaios. A sempre presente paixão pela história foi sistematizada quando ele já era advogado da Reitoria da Universidade de São Paulo e resolveu fazer o curso de História da mesma universidade, transformando-se mais tarde em professor do Departamento de Política da Faculdade de Ciências Sociais.
"Não tive a formação maciça e técnica do historiador naquele período básico dos 18 aos 22 anos, mas ganhei, por outro lado, essa facilidade e o gosto pela variedade." É com essa diversidade que Boris Fausto lançou esta semana, pela Edusp, "Fazer a América", reunião de estudos de especialistas sobre imigração na América Latina no fim do século 19 e início do 20. No exterior, ele lança, pela Cambridge University Press, "A Concise History of Brazil", uma versão reduzida e atualizada de sua "História do Brasil", publicada pela Edusp em 1995.
Boris Fausto vem de um tempo em que, assim como ele, algumas estrelas brilhavam no céu da historiografia quando a pesquisa histórica brasileira caminhava à beira do amadorismo, sem apoio e sistematização. Em 1968 ele assumiu a organização da "História Geral da Civilização Brasileira", cujos primeiros números, iniciados na década de 50, haviam sido feitos por Sérgio Buarque de Holanda e até hoje é obra de referência para jovens historiadores e curiosos. As verbas da Difel, editora responsável pela publicação, eram mínimas e Fausto chegou a colocar dinheiro do próprio bolso para fazer o trabalho. "Eu não faria hoje aquele trabalho naquelas condições", assegura.
De lá para cá, segundo ele, as coisas melhoraram muito na produção histórica, mas dificilmente há de se ter um outro Sérgio Buarque. "Ele contava com vantagens pessoais, como o apoio material da família; mas também era um gênio, que tinha uma grande capacidade de dominar as informações, além de estar sempre atualizado com as idéias que vinham para o País", lembra o historiador.
Boris Fausto apóia a história das mentalidades e do cotidiano, como a realização da "História da Vida Privada no Brasil". E acha que esse tipo de pesquisa é importante pois dá respaldo para as reformas que estão sendo feitas no ensino de segundo grau, no sentido de colocar a história num contexto interdisciplinar. Mas não é no campo do imaginário que o livro "A Concise History of Brazil" melhor se enquadra. Nas 337 páginas da edição feita para países de língua inglesa -- eram 556 na versão original --, Fausto apresenta uma história panorâmica do País, desde a expansão ultramarina portuguesa até os anos de transição da ditadura para o regime democrático. "O livro faz parte de uma coleção que tem a história concisa de vários países; li a história da Grécia, que começa no século 18 e vem até a época recente e me interessei por isso, pensando: se for uma história concisa bem feita, é muito informativa", observa o professor, que foi impulsionado a levar sua obra ao exterior pelo especialista em história da América Latina Herbert Klein, da Columbia University. "Acredito que o tema latino-americano vai interessar mais o público norte-americano que o britânico", adverte. "E por sugestão da própria Cambridge, alguns temas atuais foram mais bem explorados, como a ecologia, os índios e as florestras brasileiras."
A preocupação com a atualidade já estava na versão brasileira da "História do Brasil". Das 12 partes em que se dividia o livro, seis eram dedicadas ao período republicano brasileiro, enquanto as outras foram reservadas para a colonização e o Império. A porcentagem permanece na versão inglesa, só que distribuída em apenas seis partes. Mas em nada prejudica a compreensão dos primeiros séculos de formação do País, nem o prazer da leitura de algumas curiosidades, como a de que a palavra boçal, usada hoje para designar um sujeito meio ignorante, nasceu naquele período. Era usada pelos portugueses para se referirem aos africanos que chegavam ao País e não conheciam a língua nem os hábitos locais.
"Fazer a América" - Boris Fausto é autor de "A Revolução de 30" (Companhia das Letras), ensaio que revolucionou a historiografia brasileira na década de 70 por apresentar interpretação inédita dos acontecimentos que levaram Getúlio Vargas ao poder. Escreveu também "Crime e Cotidiano" (Brasiliense), estudo sobre o papel do crime na vida paulista na virada do século 19, e "Negócios e àcios" (Companhia das Letras), livro de memórias em que aproveita a história da chegada de sua família, vinda da Turquia, para falar sobre imigração.
Ao organizar o livro "Fazer a América", o pesquisador volta ao tema, mas de forma bem menos afetiva. "A imigração é um fenômeno fundamental para a explicação da história do Brasil contemporâneo", justifica. Para o professor, não é possível falar no assunto sem pensar regionalmente. E, tomando São Paulo como exemplo, confirma que a vinda dos italianos foi a que mais contribuiu para o jeitão que o Brasil tem hoje.
Nem por isso, no entanto, o capítulo O Brasil Italiano, da historiadora da USP Zuleika Maria Forcione Alvim, tem destaque maior que os demais no livro. Ele está ao lado de textos sobre portugueses, espanhóis, judeus, alemães, libaneses e sírios no Brasil, além de estudos da ida de diversos grupos de imigrantes para Argentina, Uruguai, Peru, Chile e Cuba. Entre os autores estão Herbert Klein (Migração Internacional na História das Américas), Alicia Bernasconi (Imigrantes Italianos na Argentina), Joaquim da Costa Leite (O Brasil e a Emigração Portuguesa) e Jordi Maluquer de Motes (A Imigração e o Emprego em Cuba).
Para Boris Fausto, a vinda de populações de diferentes países contribuiu muito para a formação da identidade nacional. "Isso não é um jogo de palavras: o Brasil tem uma identidade dentro da diversidade." E explica: "Há uma consciência, às vezes difusa, de que somos todos brasileiros e não é só na hora de torcer pela Fernanda Montenegro no Oscar ou pela seleção na Copa do Mundo; ela existe até quando se ataca demais o Brasil: é como um amor que trai."


