A partir do título, ‘‘Borges e os Orangotangos Eternos’’, alguém pode pensar numa história em que o escritor argentino Jorge Luis Borges (1899 - 1986) vaga, cego, por uma floresta labiríntica repleta de macacos. Primatas que passam o tempo escrevendo livros para depois escreverem livros sobre os livros que escreveram. Para depois, na sequência, criarem obras sobre os livros que escreveram falando dos livros que escreveram. E assim por diante em direção ao infinito espelhado.
Mas não. O novo trabalho do escritor e jornalista gaúcho Luis Fernando Verissimo que acaba de ser publicado pela Editora Companhia das Letras, ‘‘Borges e os Orangotangos Eternos’’, é um romance policial em que Borges faz papel de Sherlock Holmes. Fechado em sua biblioteca, cego e velho, procura desvendar com altas doses de imaginação um crime aparentemente insolúvel.
A obra é o sexto volume da coleção de romances policiais ‘‘Literatura ou Morte’’, que transforma em personagens grandes nomes da literatura mundial. Entre os outros volumes publicados estão ‘‘A Morte de Rimbaud’’ de Leandro Konder, ‘‘Medo de Sade’’ de Bernardo Carvalho, ‘‘Stevenson Sob as Palmeiras’’ de Alberto Manguel, ‘‘O Doente MoliSre’’ de Rubem Fonseca e ‘‘Os Leopardos de Kafka’’ de Moacyr Scliar.
A história de Verissimo é narrada por Vogelstein, um solitário tradutor de meia-idade que vive em Porto Alegre. Admirador da obra do escritor norte-americano Edgar Allan Poe (1809 - 1849), decide ir a um congresso da Israfel Society que acontecerá em Buenos Aires. A Israfel é uma entidade que reúne os maiores especialistas em Edgar Allan Poe do mundo. Pela primeira vez desde sua fundação, a entidade realizará um congresso na América do Sul, uma oportunidade rara de Vogelstein conhecer seus famosos integrantes.
Chegando em Buenos Aires, no coquetel de abertura do evento, depara-se com o embate entre os congressistas. Uma batalha de idéias que se transforma numa briga de fim de festa inundada de champanhe. Na mesma noite, Vogelstein é apresentado a Jorge Luis Borges, seu ídolo máximo, e testemunha um assassinato no hotel em que está hospedado.
A vítima é o mais raivoso dos participantes do congresso que pretende desmascarar as falsas teses de outros pesquisadores sobre a obra de Allan Poe. Como única testemunha do crime, Vogelstein é convidado a visitar Borges em sua casa. Isso porque, nas horas de folga, Borges possui o hábito de brincar de detetive, tentando desvendar, sem sair de sua biblioteca, crimes que a polícia não consegue elucidar.
Em cada encontro, Vogelstein relata a Borges novos fatos que a memória lhe traz sobre a noite do crime. Suas lembranças são vagas devido ao elevado estado alcóolico em que se encontrava na ocasião. A cada novo elemento, o escritor argentino descarta um suspeito e nomeia outro numa rede temperada pelo absurdo.
Nesses encontros, chegam a delirar ao ponto de acreditarem que o crime está ligado à uma cauda maior: impedir que seja revelado o segredo do universo, fato que poderia destruir o próprio universo. De um saco de referências sem fundo, entram em jogo a cabala, a alquimia, Allan Poe, H. P. Lovecraft, espelhos, punhais, literatura, conspirações, macacos com poderes sobrenaturais e outras coisas.
Na história narrada por Luis Fernando Verissimo existe um valor significativo conferido à coincidência, um elemento que pode converter vida em literatura e literatura em vida. Um valor desvendado nas seguintes palavras do protagonista: ‘‘Uma vez escrevi uma história sobre a greve dos deuses. Um a um, os deuses que regem a existência humana entraram em greve, sem afetar a vida de ninguém. O deus da paixão, o deus dos desejos, o deus da mesquinhez e da grandeza... Nenhuma greve tem efeito sobre o destino dos homens, fora algumas privações e mal-entendidos. Só quando o deus das coincidências pára é que a história de cada um muda. No meu conto, que se chama ‘O Deus das Coincidências’, Édipo morre de velho, sem drama, sem nunca saber sua história verdadeira, cercado de netos.’’
Voltando à Porto Alegre com o crime sem solução, Vogelstein escreve um relato sobre os acontecimentos, que é o próprio romance ‘‘Borges e os Orangotangos Eternos’’. Envia o texto inacabado para que o próprio Jorge Luis Borges crie um desfecho para a história. Em outras palavras, o autor da narrativa concede ao personagem a possibilidade de escolher o próprio destino. O interessante é que a operação se inverte, o personagem, no caso Borges, prefere escolher o destino do autor, Vogelstein. E assim o crime é solucionado com a bola de cristal da ficção. Na realidade quem realmente escolhe o destino de ambos é Luis Fernando Verissimo.
Em ‘‘Borges e os Orangotangos Eternos’’ o escritor gaúcho substitui o humor característicos de grande parte de seus textos por uma educada ironia. Com uma estrutura inteligente, importante ingrediente do romance policial, Verissimo ironiza, de maneira discreta, o próprio gênero literário.
‘‘Borges e os Orangotangos Eternos’’ de Luis Fernando Verissimo, Editora Companhia das Letras, 134 páginas, R$ 18,00.

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