BORGES NA JAULA DOS MACACOS
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 08 de novembro de 2000
Marcos Losnak De Londrina Especial para a Folha 2 
A partir do título, Borges e os Orangotangos Eternos, alguém pode pensar numa história em que o escritor argentino Jorge Luis Borges (1899 - 1986) vaga, cego, por uma floresta labiríntica repleta de macacos. Primatas que passam o tempo escrevendo livros para depois escreverem livros sobre os livros que escreveram. Para depois, na sequência, criarem obras sobre os livros que escreveram falando dos livros que escreveram. E assim por diante em direção ao infinito espelhado.
Mas não. O novo trabalho do escritor e jornalista gaúcho Luis Fernando Verissimo que acaba de ser publicado pela Editora Companhia das Letras, Borges e os Orangotangos Eternos, é um romance policial em que Borges faz papel de Sherlock Holmes. Fechado em sua biblioteca, cego e velho, procura desvendar com altas doses de imaginação um crime aparentemente insolúvel.
A obra é o sexto volume da coleção de romances policiais Literatura ou Morte, que transforma em personagens grandes nomes da literatura mundial. Entre os outros volumes publicados estão A Morte de Rimbaud de Leandro Konder, Medo de Sade de Bernardo Carvalho, Stevenson Sob as Palmeiras de Alberto Manguel, O Doente MoliSre de Rubem Fonseca e Os Leopardos de Kafka de Moacyr Scliar.
A história de Verissimo é narrada por Vogelstein, um solitário tradutor de meia-idade que vive em Porto Alegre. Admirador da obra do escritor norte-americano Edgar Allan Poe (1809 - 1849), decide ir a um congresso da Israfel Society que acontecerá em Buenos Aires. A Israfel é uma entidade que reúne os maiores especialistas em Edgar Allan Poe do mundo. Pela primeira vez desde sua fundação, a entidade realizará um congresso na América do Sul, uma oportunidade rara de Vogelstein conhecer seus famosos integrantes.
Chegando em Buenos Aires, no coquetel de abertura do evento, depara-se com o embate entre os congressistas. Uma batalha de idéias que se transforma numa briga de fim de festa inundada de champanhe. Na mesma noite, Vogelstein é apresentado a Jorge Luis Borges, seu ídolo máximo, e testemunha um assassinato no hotel em que está hospedado.
A vítima é o mais raivoso dos participantes do congresso que pretende desmascarar as falsas teses de outros pesquisadores sobre a obra de Allan Poe. Como única testemunha do crime, Vogelstein é convidado a visitar Borges em sua casa. Isso porque, nas horas de folga, Borges possui o hábito de brincar de detetive, tentando desvendar, sem sair de sua biblioteca, crimes que a polícia não consegue elucidar.
Em cada encontro, Vogelstein relata a Borges novos fatos que a memória lhe traz sobre a noite do crime. Suas lembranças são vagas devido ao elevado estado alcóolico em que se encontrava na ocasião. A cada novo elemento, o escritor argentino descarta um suspeito e nomeia outro numa rede temperada pelo absurdo.
Nesses encontros, chegam a delirar ao ponto de acreditarem que o crime está ligado à uma cauda maior: impedir que seja revelado o segredo do universo, fato que poderia destruir o próprio universo. De um saco de referências sem fundo, entram em jogo a cabala, a alquimia, Allan Poe, H. P. Lovecraft, espelhos, punhais, literatura, conspirações, macacos com poderes sobrenaturais e outras coisas.
Na história narrada por Luis Fernando Verissimo existe um valor significativo conferido à coincidência, um elemento que pode converter vida em literatura e literatura em vida. Um valor desvendado nas seguintes palavras do protagonista: Uma vez escrevi uma história sobre a greve dos deuses. Um a um, os deuses que regem a existência humana entraram em greve, sem afetar a vida de ninguém. O deus da paixão, o deus dos desejos, o deus da mesquinhez e da grandeza... Nenhuma greve tem efeito sobre o destino dos homens, fora algumas privações e mal-entendidos. Só quando o deus das coincidências pára é que a história de cada um muda. No meu conto, que se chama O Deus das Coincidências, Édipo morre de velho, sem drama, sem nunca saber sua história verdadeira, cercado de netos.
Voltando à Porto Alegre com o crime sem solução, Vogelstein escreve um relato sobre os acontecimentos, que é o próprio romance Borges e os Orangotangos Eternos. Envia o texto inacabado para que o próprio Jorge Luis Borges crie um desfecho para a história. Em outras palavras, o autor da narrativa concede ao personagem a possibilidade de escolher o próprio destino. O interessante é que a operação se inverte, o personagem, no caso Borges, prefere escolher o destino do autor, Vogelstein. E assim o crime é solucionado com a bola de cristal da ficção. Na realidade quem realmente escolhe o destino de ambos é Luis Fernando Verissimo.
Em Borges e os Orangotangos Eternos o escritor gaúcho substitui o humor característicos de grande parte de seus textos por uma educada ironia. Com uma estrutura inteligente, importante ingrediente do romance policial, Verissimo ironiza, de maneira discreta, o próprio gênero literário.
Borges e os Orangotangos Eternos de Luis Fernando Verissimo, Editora Companhia das Letras, 134 páginas, R$ 18,00.


