O Colóquio Internacional O Trágico e seus Rastros, evento aglutinador do pensamento trágico atual, trouxe à Londrina, na semana passada, uma voz serena, pausada e ponderada sobre nossa maneira de viver e enxergar o mundo. A voz em questão é de Michel Maffesoli. Doutor em sociologia e filosofia, Maffesoli ocupa uma cadeira de docente na Sorbonne, na Universidade René Descartes – Paris V. Atua como diretor da revista Sociétés e no Centro de Estudos sobre o Atual e o Cotidiano.
  O sociólogo possui mais de 10 livros traduzidos para o português. Para se ter uma idéia da penetração das idéias do professor de 56 anos em terras brasileiras, o livro Tempo das Tribos (Forense Universitária), foi editado primeiramente aqui em 1987 e depois na França. Antes da conferência sobre o tema O Retorno do Trágico para uma platéia acadêmica da Universidade Estadual de Londrina, Michel Maffesoli concedeu uma entrevista exclusiva à Folha 2. No bate-papo, o pensador francês refletiu sobre alguns aspectos que elevam o Brasil à condição de berço da pós-modernidade.
  Os pós-modernistas rejeitam todos os sistemas de pensamento que afirmem a existência de uma verdade fundamental ou reivindiquem o conhecimento desta. Os adeptos desse movimento cultural contemporâneo torcem o nariz tanto para o pensamento dogmático religioso, como a razão científica, a análise freudiana e o marxismo. Essa corrente de idéias navega na contramão do racionalismo.
  Desde 1980, Michel Maffesoli vem regularmente ao Brasil. Conhece o sotaque de Porto Alegre a Belém. Nesse vaivém na tentativa de compreender a vida social e buscar um meio para isso, Maffesoli passou a considerar o Brasil como um laboratório da pós-modernidade. No laboratório chamado Brasil, experimenta idéias, testa conhecimentos e esquematiza miniconceitos.
  Em suas reflexões, arrisca algumas teorias contundentes. O Brasil nunca foi moderno, já nasceu pós-moderno. O Brasil copiou a modernidade da Europa, afirma enfaticamente. Uma das justificativas para que o Brasil tenha nascido em berço esplêndido pós-moderno reside no comportamento institucionalizado: o jeitinho brasileiro. O jeitinho nada mais é do que uma forma intuitiva de se adaptar ao momento, de maneira não refletida. Essa é uma maneira de combinar. A modernidade é previsível. O jeitinho brasileiro é não prever o futuro e sim adaptar-se ao presente, explica.
  A noção de laboratório remete à experimentação, tentativa e erro. Para ele, a relação social no Brasil não corresponde rigorosamente ao que foi a divisão de classes na Europa. Aqui, pode-se encontrar todos os ingredientes da pós-modernidade. Por isso, ele vem constantemente beber na fonte em mais de 60 viagens ao país-laboratório. A pós-modernidade marca a importância da dimensão imaginária e lúdica, todas as coisas que globalmente na atualidade ganham importância.
  Existe do lado de baixo do Equador uma sensibilidade social interessante a ser estudada. A maneira de estar junto da população brasileira, apesar das desigualdades sociais, contradiz o individualismo moderno europeu. Maffesoli se refere a uma atitude cotidiana, a um imaginário em que a emoção serve de resistência à adversidade. A pós-modernidade possui um parentesco com o pensamento anarquista, no sentido libertário. Segundo Maffesoli, não é um poder que vem do alto. Não é uma ideologia, mas uma sensibilidade libertária, prossegue.
  Na análise do estudioso, o problema angular para se entender a sociedade atual é o ajuste entre os microgrupos, da conjunção das tribos. Michel Maffesoli empresta da fisiologia o termo cinestesia para compreender a socialidade tribal. Enquanto um corpo sadio é dotado de uma cinestesia corporal, em que os diversos órgãos e todos os fluidos conseguem se entrosar, o pensador francês cria uma cinestesia do corpo social. Mesmo nas megalópoles pós-modernas estamos aprendendo esse acordo com o movimento. É o início do aprendizado. Por isso, vivemos momentos cruéis e sangrentos, diz.
  Em outro afago teórico empreendido por Maffesoli, ele afirma que os brasileiros encarnam uma mistura entre sensível e emocional como poucas culturas no mundo. Enquanto a modernidade se escora no racionalismo, o ser sensível, e aí brasileiro se insere, dá importância ao afetivo. O Brasil nunca perdeu a dimensão afetuosa. O jeitinho brasileiro é uma maneira de viver a emoção, de apelar à sensibilidade, sem reduzir somente à razão, afirma.
  A raiz do nosso povo como ser sensível se encontra na miscigenação, resultando numa capacidade ímpar de integrar elementos plurais e múltiplos. Mas será que a pós-modernidade consegue dar conta de explicar a fragmentada sociedade contemporânea? Maffesoli descarta a palavra explicar, prefere usar o termo compreender. O pós-modernismo compreende a sociedade contemporânea porque integra a parte sombria da sociedade e do indivíduo, incluindo aí os detalhes. Na concepção pós-modernista, até o frívolo se integra ao holismo.

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