BORGES E O ATO DE PENSAR
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 13 de março de 2001
Miguel Sanches Neto Especial para Agência Estado 
Sem ter sido propriamente um pensador, mas se dedicando a refletir sobre a literatura, Jorge Luis Borges criou um estilo analítico fundado em sua condição de leitor/bibliotecário, tal como fica visível nas palestras proferidas em Harvard no fim da década de 60 e salvadas do esquecimento no volume Esse Ofício do Verso. Numa de suas falas, Borges, que sempre abusa de exemplos, confessa essa sua predileção: nenhuma discussão pode ser levada adiante sem exemplos. Com base nesta assertiva, transforma suas análises em um vasto painel de citações, presentificando autores e obras, o que revela que, para ele, o ato de pensar é antes de mais nada organizar mentalmente uma biblioteca.
Esta biblioteca é composta por seis estantes com comunicação entre si, nas quais ele trata de teses poéticas. Este é um dado curioso do livro: Borges se vê basicamente como um poeta, encarando a ficção curta como secundária, ao ponto de propor, em O Narrar uma História, uma volta à poesia épica, na qual a narrativa reencontraria a sua matriz mágica: ... como o futuro comporta várias coisas ..., acho que a épica voltará para nós. Creio que o poeta haverá de ser outra vez um fazedor.
O poeta fazedor seria aquele que, além de emitir notas líricas, soubesse narrar uma história. Esta reunificação do narrador com o autor de epifanias líricas seria o caminho para conciliar a sua condição de poeta que se dedica também à narrativa.
Tal proposta ajuda a entender a própria ficção borgeana, que mantém conexões com os grandes textos épicos, vindo daí, e não apenas de sua paciente leitura de As Mil e Uma Noites, a sua derivação para o conto fantástico. No fundo estaria este desejo de recuperar o formato épico. Num livro de 1960 (intitulado O Fazedor), composto de textos em prosa e em verso, Borges cria, a partir de dados autobiográficos, a figura de um herói que, ao se sentir cego, estabelece uma conexão com o universo mitológico da Grécia, ao qual ele se une num tempo inconsútil. O personagem, assim, restaura uma unidade temporal que remete a seu projeto literário de reaproximação da grandeza épica.
Se Borges sempre se identificou com a biblioteca, que era, para ele, a representação do paraíso, esta não funcionava como um espaço da erudição ou de mera informação, mas como uma passagem aberta para a vida. Em O Enigma da Poesia, ele deixa dito que os livros são apenas ocasiões para a poesia, ou seja, que a poesia não está no objeto ou na linguagem, mas na conjunção destes com o leitor, que acionará, no momento da fruição, todas as suas circunstâncias existenciais.
O vínculo entre vida e poesia vai livrá-lo de uma aridez intelectual que geralmente caracteriza os autores consagrados profissionalmente aos comentários de textos. Avesso a teorias, ele não deixa de criticar o descompasso entre estas e a experiência vivida: Sempre que folheava livros de estética, tinha a desconfortável sensação de estar lendo as obras de astrônomos que nunca contemplavam as estrelas. Falar, portanto, de autores e obras, para Borges, era revelar vínculos autobiográficos, explicitando antes de mais nada uma paixão.
Logo, não é por acaso que a melhor palestra é a última, intitulada O credo de um poeta, em que Borges dá um depoimento sobre a sua própria experiência poética e humana. Seguindo o seu estilo ziguezagueante, com idas e voltas, ele afirma algumas verdades literárias, sabendo que elas são extremamente pessoais. A primeira é a precedência do ato de ler sobre o de escrever. Ou seja, o leitor vem antes do autor, invertendo assim o culto egotista que nos transformou em uma sociedade de emissores. Borges retoma a persona do leitor apaixonado e não a do entediado, que parece ser hoje a mais frequente: Acho que o que li é muito mais importante que o que escrevi. Pois a pessoa lê o que gosta porém não escreve o que gostaria de escrever, e sim o que é capaz de escrever.
Outro credo é o de que no contato com a cultura as razões do sentimento são melhores do que as do pensamento: Em poesia, o sentimento basta, imagino. Se o sentimento nos invade, isso há de ser suficiente. E esta conclusão o leva a mais uma verdade: a de que se deve evitar a facilidade das formas fixas, por funcionarem como um pressuposto rítmico que condiciona e mascara os resultados: Comecei, tal como a maioria dos jovens, pensando que o verso livre era mais fácil que as formas fixas. Hoje estou bastante convicto de que o verso livre é muito mais difícil que as formas fixas e clássicas.
Opondo-se aos modelos, Borges elege uma forma poética que não seja fruto de uma definição intelectual, mas que nasça ao sabor das condições vividas pelo eu num dado momento. E aí entra em cena mais um credo, a não intervenção nos produtos artísticos nascidos sob o impacto de um instante cheio de emoções: Se tivéssemos que dar conselhos a escritores ..., pediria que mexessem o menos possível em seu próprio trabalho. Não acho que remendos sejam de algum proveito. Chega uma hora em que a pessoa descobre o que é capaz de fazer em que descobre a sua voz natural, o seu ritmo.
Borges ainda se posiciona contra os acréscimos estilísticos da erudição, que ele próprio usou em certa fase da vida, defendendo um texto espontâneo, sem as flores da retórica, as metáforas e os adjetivos esquisitos.
O que está em jogo é uma literatura que não faz concessão a nenhum tipo de exigência coletiva, atendendo exclusivamente às necessidades de expressão. E aí entra um conceito fundamental: o de que a modernidade não é uma questão de estilo ou de postura, mas uma decorrência natural dos vínculos inevitáveis entre o artista e o tempo moderno. Com isso, não haveria um tema mais moderno do que outro, nem um estilo mais ou menos contemporâneo, todos o seriam indistintamente: Nós somos modernos; não precisamos lutar para ser modernos. Não é uma questão de tema ou de estilo. É, isso sim, uma fatalidade histórica.
Ao longo deste depoimento, desmitificador em todas as suas páginas, Borges declara-se avesso a todas as formas de consciência no ato da escrita, sejam geográficas, políticas, pessoais, estilísticas ou temporais. Na verdade, a escrita, assim como a leitura, seria antes uma entrega do que um posicionamento do intelecto: Não acho que a inteligência tenha muito a ver com o trabalho de um escritor.
Nesta declaração de princípios, mais importante do que o resto do livro, Borges faz uma defesa da poesia como ofício da emoção, contrariando toda uma corrente crítica da poesia que a concebe como flor de estufa e que tenta ler Borges como um representante desta vertente.
Numa tradição intelectualóide como a nossa, estes depoimentos têm função profilática: a autoridade deste que é um dos mais respeitados escritores do século 20 pode servir para corrigir algumas rotas. Apesar de sua relevância, é forçoso concluir que Esse Ofício do Verso é uma obra periférica, menor. Em se tratando de Borges, no entanto, o menor é sempre enorme.
Esse Ofício do Verso De Jorge Luis Borges. Cia. das Letras, 160 págs., R$ 20,00.


