'Borboletas Negras' retrata a vida de poetisa sul-africana
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sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
Rafael Ceribelli <br> Reportagem Local 
''A criança não está morta'', suspira, com os olhos fixos no espelho, uma mulher sentada na cama, encoberta pelas sombras da madrugada: ''A criança não está morta''. A cena, um dos pontos altos do longa ''Borboletas Negras'' - estreia da semana na programação do Cine Com-Tour/UEL - mostra a maneira como, em certos momentos, o filme da cineasta holandesa Paula van der Oest tem sucesso em retratar, de maneira singela, o abismo emocional que envolve a biografia de uma das maiores poetisas da África do Sul.
Aberto com um poema sobre a falsidade do amor, lentamente o longa nos apresenta à protagonista, e entendemos os fatores que tornaram a história pessoal de Ingrid Jonker (Carice van Houten) tão conturbada em diversos sentidos. Mãe solteira e vivendo em pleno apogeu do Apartheid sul-africano, a poetisa carrega o fardo de ser a filha rejeitada do Ministro da Censura do país (Rutger Hauer) ao mesmo tempo em que desenvolve uma paixão - de amor e ódio - pelo escritor liberal Jack Cope (Liam Cunningham).
Amparado por atuações fortes que reforçam o caráter sentimental e pessoal do longa, o enredo expõe a enorme intensidade que envolve os relacionamento de Jonker, em especial nos conflitos com o seu pai. Em uma das cenas mais emocionantes do filme, o impassível Ministro da Censura fica visivelmente abalado ao ler, em voz alta, a dura realidade social de seu país, disfarçada por entre as linhas poéticas da própria filha.
A narrativa subjetiva do filme consegue retratar - entre planos intimistas e algumas narrativas em off - a batalha que a poetisa, dona de uma personalidade difícil e autodestrutiva, travava contra seus próprios demônios. Jonker, no auge do seu alcoolismo, parecia carregar um buraco negro em seu coração, que sugava a energia de todos ao seu redor e que, ao final, terminou por eliminar a sua própria alma. ''Eu não me aguento mais'', ela às vezes declarava.
Mesmo tendo como pano de fundo um contexto social delicado, não espere assistir a um drama político. ''Borboletas Negras'' tem mérito em abrir mão da sua objetividade concreta para se concentrar em ser um retrato da fascinante psique da artista. Com isso, o filme consegue demonstrar, por exemplo, como a genialidade irrascível da poetisa era traduzida pelas linhas de sua poesia. As palavras - que ela vomitava impiedosamente sobre papéis amassados, rabiscos nas paredes ou em vidros embaçados - eram a pura expressão de sua infelicidade.
Por isso mesmo, é bastante decepcionante que o longa seja concluído, no minuto final, em um tom político e otimista, usando como recurso o discurso de Mandela que cita a poesia mais famosa de Jonker - ''A Criança (Que Foi Morta Pelos Soldados de Nyanga)'', e tirando de contexto toda a sua verdadeira dimensão poética. Os problemas dela nunca foram puramente de âmbito político ou racial; os poemas revoltosos de Jonker eram todos, em última instância, sobre a falta de sentido da própria existência humana.


