'Booker' de Grota repete sucesso em Gramado
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 15 de agosto de 2008
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> De Gramado, especial para a Folha2 
E o jovem Rodrigo Grota agora já é reincidente. Não foi apenas a proeza de emplacar dois filmes seguidos, 2007 e 08, na mostra competitiva de curtas-metragens do Festival de Gramado. ''Booker Pittman'', filme que fechou com indiscutível brilho o segmento da categoria, mantém e em certo sentido refina as qualidades que incluíram ''Satori Uso'' entre os filmes brasileiros mais instigantes do ano passado. No ritual de palco, anteontem antes da projeção, um parabéns a você cantado em coro pela platéia que lotou a sala de projeção: comemorando aniversário, e aqui em Gramado a convite do festival, a cantora Eliana Pittman, filha do jazzista biografado que andou por Londrina e Norte Pioneiro nos anos 1959. Seu melhor presente viria a seguir, com a projeção do curta-metragem.
Quanto a Kikitos na festa de hoje à noite no Palácio dos Festivais, porém, o destino imediato do filme é uma incógnita. A estrutura narrativa nada convencional de ''Booker'', que funde imagens soberbas (de novo produzidas pelo olhar inundado em preto-e-branco do iluminador Carlos Ebert) a uma trilha sonora organicamente necessária e que de certa forma ''escreve'' o roteiro do filme, vai diretamente na contramão da totalidade dos outros concorrentes. Se ''Satori Uso'' era a cinebiografia fake de poeta japonês que nunca existiu, ''Booker'' é o aplicado e sensível olhar cinéfilo debruçado sobre o músico norte-americano que de fato existiu, mas em certo sentido tão irreal quanto o japonês dos haicais.
Rotular o filme de documentário é empobrecer a obra, é reducionismo que não se aplica a um precioso exercício de estilo - ousando uma definição aproximada, ''Booker Pittman'' viaja sem medo na própria improvisação do jazz mais cool, mesmo que a música de Booker tenha soado muito mais emocional do que cerebral. E as imagens sonoras se transformam magicamente no improviso do melhor cinema autoral, numa viagem quase de abstrações pictóricas e musicais. É cinema de gente grande, sem dúvida.
Em contraposição à proposta do filme de Grota, os outros onze selecionados optaram por narrativas em moldes clássicos, por dramaturgias já experimentadas, pela segurança de temas e formas já trilhados. Nem mesmo a divertida e marota animação ''Dossiê Rebordosa'', adversário com maior poder de fogo, tem o atrevimento e o frescor da proposta do curta londrinense. Vai depender, afinal, de uma visão igualmente refinada por parte do júri. E isto, sabe-se por longa tradição, tem lá seus momentos de sortilégio.
Na mostra competitiva latina, a estréia da quinta à noite foi o mexicano ''Cochochi'', filme minimalista, um delicado retrato da pré-adolescência de dois garotos indígenas. Mais parece um história contada pelo iraniano Abas Kiarostami, mais precisamente ''Onde Fica a Casa do Meu Amigo?'' Aqui não há um caderno para entregar, mas um cavalo perdido para encontrar. O argumento trata de uma travessia, quase cósmica e por vários momentos cômica, de dois meninos pelo vale de Okochochi, na província mexicana de Chihuahua. Devem entregar remédios para uns idosos. No caminho, o cavalo some. Talvez tenha sido roubado, talvez a amarra tenha se soltado.
É um périplo de conhecimento, e para quem vê o filme é uma viagem de descobertas. Aos poucos é revelada uma cultura indígena ancestral que convive com a tecnologia básica do Ocidente: meios de transporte e de comunicação. O cavalo. O rádio como a web do povo. Há música, instrumentos, há um outro idioma. Mas há também uma advertência: talvez o cavalo tenha sido roubado por um branco. ''Os brancos querem tudo para eles.''
Formalmente consistente, ''Cochochi'' evita o turismo audiovisual e a inerte curiosidade etnográfica. É muito mais o registro delicado de dois meninos num rito de passagem. Singular, universal, diferente. Pena que os diretores Israel Cardenas e Laura Guzman ou qualquer dos atores não profissionais não tenham podido vir para contar sobre esta experiência.
Quem chegou muito bem à competição dos brasileiros foi ''Juventude'', escrito e dirigido por Domingos de Oliveira, divertida, agridoce, otimista comédia sobre homens na faixa dos 70. Reunidos na bela casa de veraneio de um deles, o trio de amigos (o próprio Oliveira, Paulo José e Aderbal Freire) falam sobre suas existências, seus amores, suas mulheres, os encontros e desencontros, as lembranças, a velhice e a proximidade da morte. O tom, afinal, é de celebração da vida. Roteiro bem escrito e amarrado, espirituoso e afetuoso, ''Juventude'' foi o único filme ovacionado ao final da projeção. E o clima descontraído da tela transferiu-se ontem para a mesa de debates, com a dupla Domingos-Paulo José esbanjando bom humor e brilho intelectual.


