Com absoluta certeza ‘‘Shrek’’, exibido no fim de semana em Cannes, não leva a Palma de Ouro mas não seria nada sem propósito algum tipo de premiação especial para este muito, muito inteligente longa de animação que o festival em boa hora incluiu na seleção competitiva. É até possível ousar: estamos diante de um clássico instantâneo. A animação de Andrew Adamson e Vicky Jenson subverte os mais tradicionais e amados contos de fadas ao mesmo tempo em que também não descarta nada inteiramente. Ícones como os Três Porquinhos e o Lobo Mau, Pinóquio, Branca de Neve e os Sete Anões, Cinderela, Bela Adormecida, Fada Sininho, dragões, princesas - todos imortalizados pelos desenhos Disney - e toda uma gama de personagens passam por uma reciclagem que seria implacável não fosse acima de tudo hilariante. ‘‘Shrek’’, a história de um ogro verde, impertinente, abusado e escatológico e de seu amigo asno falante (não um grilo, sentiram?) que precisam libertar uma donzela guardada por dragão que cospe fogo, faz recordar um tempo (era uma vez...?) em que Hollywood fazia bons filmes para platéias de 4 a 100 anos.
Tecnicamente ‘‘Shrek’’ ultrapassa tudo o que se conhece de animação obtida via computador, e se coloca como extra-classe do gênero. No Brasil, quando o filme for lançado, seria recomendável que a distribuidora UIP considerasse uma boa tiragem de cópias não dubladas. O irresistível charme do filme deve muito às vozes de Mike Meyers (Shrek), Eddie Murphy, impecável como o asno falante (de agora em diante Murphy poderia se dedicar a apenas isso), Cameron Diaz como a princesa Fiona e Lord Farquaad, com a voz de John Lithgow.
Também foi exibido um belo, sereno e comovente filme deste nonagenário Manoel de Oliveira que não tem nada mais a provar em Cannes. O veteraníssimo e ativíssimo diretor - 11 vezes presente no festival, 5 delas em competição, uma realização a cada ano, às vezes menos: ‘‘Palavra e Utopia’’ concorreu em Veneza-2000 - reaparece agora com este ‘‘Vou Para Casa’’. De complexa simplicidade, ‘‘Je Rentre a la Maison’’ surgiu de um fato verídico. Num certo dia, nos sets das fimagens de ‘‘Palavra e Utopia’’, ano passado em Portugal, um veterano ator que estaria numa cena a ser logo rodada se levantou e foi embora dizendo: ‘‘vou para casa’’, assim, sem motivo aparente. No mesmo dia, Manoel de Oliveira se debruçou para escrever o roteiro do filme que está agora em Cannes.
E os irmãos Coen, Joen e Ethan, não se emendam mesmo. Fizeram mais um filme que é um grande prazer desfrutar. ‘‘The Man Who Wasn’t Here’’ é um film noir rigoroso, em refinado preto e branco, um trabalho formalmente esculpido em imagens de extraordinária beleza plástica. Neste irretocável exercício de estilo, o indecifrável Ed Crane (Billy Bob Thornton, com um look entre Montgomery Clift e Humphrey Bogart) é barbeiro numa pequena cidade da Califórnia, fim dos anos 40. Quando um cliente de passagem fala sobre um investimento de futuro (lavagem a seco), Ed vê a chance de mudar de vida. Para obter o dinheiro do negócio ele faz changagem com o amante da mulher (Frances MacDormand). Idéia que de resto vai desencadear uma série de acontecimentos trágicos.
Uma pincelada do James McCain de ‘‘O Destino Bate Duas Vezes’’, um sopro de existencialismo, uma idéia de roteiro que se socorre de ‘‘Fargo’’, alguns planos oníricos também decupados de outros filmes da grife Coen, uma hábil reciclagem de alguns clichês do noir americano e está feito o jogo. Um ano depois de ‘‘E Aí Meu Irmão, Cadê Você?’’, estes decididamente prolíficos Joen e Ethan se encontram pela sexta vez na seleção oficial. E ambos estão na metade dos anos de Manoel de Oliveira...(C.E.L.J.)

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